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Crítica

Jogos Mortais: Jigsaw | Crítica

Franquia tenta retorno triunfal com filme morno e pouco inventivo

Arthur Eloi
01.12.2017, às 12H14
ATUALIZADA EM 01.12.2017, ÀS 13H02
ATUALIZADA EM 01.12.2017, ÀS 13H02

O legado de Jogos Mortais no cinema é indiscutível: a franquia não só lançou o diretor, roteirista e produtor James Wan (Velozes e Furiosos, Aquaman) ao mundo como também deu força ao cinema de terror nos grandes estúdios. Quando passou a dar frutos, com franquias como Sobrenatural (2010) e Invocação do Mal (2013), e as ideias começaram a se esgotar, ficou claro que a saga de Jogos Mortais já não tinha mais espaço. Agora, sete anos após o último capítulo, Jigsaw tenta trazê-la de volta com mais armadilhas, sangue e conspirações.

Na trama, uma série de corpos começam a surgir, com marcas e feridas que parecem sugerir que há um imitador do serial killer Jigsaw à solto. Paralelamente, um grupo de desconhecidos acorda em um sádico jogo onde seus defeitos e erros do passado são explorados. O primeiro problema surge aí: a premissa é batida, principalmente dentro da própria mitologia da saga.

Presente em todos os títulos, o assassino John Krammer (Tobin Bell) é morto no terceiro filme. Mesmo assim, todos os longas seguintes - do quarto até o sétimo - utilizam a ideia de que ele tinha cúmplices e discípulos, com seus seguidores criando seu legado a partir de instruções ou imitação. Até para o fã, é uma ideia cansada, uma desculpa preguiçosa para sempre ter algo a mais para contar - mesmo que isso não se prove verdade, com histórias cada vez mais enroladas e cheias de furos.

Desafio mecânico

A forma como Jogos Mortais compensava o seu arco central fraco no passado era com violência gráfica e armadilhas bem elaboradas, criadas em cima de cada personagem problemático que se tornaria a vítima. As brutais cenas de embrulhar o estômago tornaram-se marca registradas da série, grande responsável por popularizar o termo "torture porn" para descrever o subgênero de filmes com grande apelo de sanguinolência. Em Jigsaw, não é bem assim. O que funcionava tão bem era o fato de que as mortes não eram gratuitas dentro do contexto da obra. O assassino tinha um propósito: punir a vítima por desprezar a própria vida, com seu vício ou crime refletidos diretamente no desafio. As armadilhas eram enigmas a serem solucionados - as mais memoráveis, pelo menos.

Jigsaw ainda utiliza esse princípio. O jogo que Anna (Laura Vandervoort), Mitch (Mandela Van Peebles) e os demais reféns participam faz com que se roa as unhas de tempos em tempos, e até são embasados em cima dos erros de cada participante, porém as armadilhas em si são pouco inventivas. Sem a complexidade de encontrar a saída para elevar a tensão, o filme apela para personagens estúpidos que apenas demoram para tomar decisões na esperança que isso seja o suficiente para tirar seu fôlego.

Jogos Mortais pode fazer melhor do que isso. A saga já foi da simplicidade de ter duas vítimas acorrentadas por horas em um banheiro a uma espécie de jogo cooperativo onde os reféns precisavam se unir para aliviar a brutalidade das tarefas. Até nos títulos mais fracos, como o sexto longa (2009), criava provas em cima do desdém cotidiano de um poderoso homem de negócios. A série já demonstrou ter uma perversa espécie de criatividade para matar, então decepcionar nesse ponto parece um erro absurdo.

Nem tudo está perdido

Apesar de trabalhar em cima de uma premissa pouco inspirada, o que torna Jigsaw interessante é justamente a investigação conduzida pelos detetives Halloran (Callum Keith Rennie), Keith Hunt (Clé Bennett) e pelos médicos legistas Logan (Matt Passmore) e Eleanor (Hannah Emily Anderson).

A procura pelo novo serial killer é intrigante ao ser conduzida por pessoas igualmente suspeitas: a fã de Jigsaw, a pessoa com um trauma pessoal, o investigador corrupto, etc. Todos passam longe do modelo de herói, e isso cria desconfiança no espectador ao melhor estilo de Pânico, onde qualquer um pode estar envolvido ou escondendo segredos. O desenvolvimento dos personagens, as atuações e os diálogos não são brilhantes - muitas vezes nem mesmo medianos -, mas seguraram sua atenção e suspeita por certo tempo.

Quando o mistério começa a abusar da sua boa vontade, a trama introduz uma reviravolta que vai um pouco além de apenas apontar o responsável. Não é um elemento realmente surpreendente mas mostra potencial para uma possível sequência - desde que a produção veja seus próprios erros e limitações.

O gosto que fica é de que a franquia não chegou perto de seu retorno triunfal. Jigsaw não é um filme ruim, mas sim morno e esquecível. De certa forma, considerando o histórico e influência que Jogos Mortais teve no passado, isso parece ainda pior.

Jogos Mortais: Jigsaw
Jigsaw
Jogos Mortais: Jigsaw
Jigsaw

Ano: 2017

País: EUA, Canadá

Classificação: 18 anos

Duração: 105 min

Direção: Michael Spierig, Peter Spierig

Roteiro: Pete Goldfinger, Josh Stolberg

Elenco: Laura Vandervoort, Tobin Bell, Callum Keith Rennie, Matt Passmore, Hannah Anderson, Brittany Allen, Mandela Van Peebles, Tina Jung, Michael Boisvert, Misha Rasaiah, Shaquan Lewis, Josiah Black, Attila Sebesy, Attila Sebesy, Laura Vandervoort, Tobin Bell, Hannah Anderson, Brittany Allen, Callum Keith Rennie, Matt Passmore, Mandela Van Peebles, Bonnie Siu, Sonia Dhillon Tully, Paul Braunstein, Shaquan Lewis, James Gomez, Brandon James Sim, Lauren Beatty, Sam Koules

Nota do Crítico
Regular

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