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Crítica

Jogo Perigoso - Crítica

Nova adaptação de Stephen King é miscelânea sobre abuso sexual, machismo, fetiche e terror psicológico

Rafael Gonzaga
05.10.2017, às 20H44
ATUALIZADA EM 29.06.2018, ÀS 02H46
ATUALIZADA EM 29.06.2018, ÀS 02H46

Stephen King está mais alta que nunca e a Netflix aumentou a lista de adaptações do autor para o audiovisual com o longa Jogo Perigoso. O livro original, publicado em 1992, mostra o talento do autor em fazer o mais puro e eficiente terror psicológico com poucos recursos: a trama gira em torno de uma mulher que vai a uma casa afastada com o marido para realizar as fantasias sexuais dele e acaba presa em um pesadelo. Após divergências sobre colocar determinados fetiches em prática, o marido sofre um ataque cardíaco e sua jovem esposa termina sozinha e algemada na cabeceira da cama, sem possibilidade de se mover, pedir ajuda ou mesmo se alimentar - sua única companhia é um cão faminto que vai lentamente devorando o corpo do homem morto.

O longa é protagonizado por Carla Gugino (Watchmen, Sucker Punch) ao lado dos atores Bruce Greenwood (Star Trek, Star Trek: Além da Escuridão) e Henry Thomas, o eterno Elliot de E.T. O Extraterrestre. Gugino vive a esposa chamada Jessie, enquanto seu marido Gerald é papel de Greenwood - Thomas é o pai de Jessie, fundamental nos diversos flashbacks que se desenrolam ao longo da trama. Antes de ser um filme sobre sobrevivência, Jogo Perigoso é essencialmente um suspense psicológico. Enquanto definha presa à cama, Jessie tem como companhia apenas alucinações que fazem com que ela encare fatos do passado e que vão induzindo suas ações em busca - ou não - de salvar sua vida e sua sanidade mental.

Em relação ao processo de adaptação, contudo, o diretor Mike Flanagan fez escolhas infelizes do que levar para o longa e do que deixar de lado do conteúdo original. O filme seria muito mais interessante se mantivesse todos os holofotes no confronto da mulher presa no beiral da cama com seu passado, mas o diretor opta por trazer do livro também alguns elementos que soam como sobrenaturais à primeira vista. Durante suas alucinações, causadas pelo misto de medo e privação de água, Jessie recebe a visita de uma figura que apelida de Homem de Luar - que, sem maiores spoilers, depois embarca em uma trama paralela pontuada por necrofilia que não acrescenta absolutamente nada à história principal. Já outras alucinações do livro, como a de uma velha amiga do colégio e de sua ex-psiquiatra, não aparecem no filme.

O começo do longa é bem construído: todos os detalhes constroem uma atmosfera de tensão no espectador, que vai vendo a cena da tragédia de Jessie sendo desenhada. Porém, o mais interessante é ver que, desde o começo, tudo ao redor da protagonista esteve ligado à traumas do passado - sem que o espectador perceba, Jogo Perigoso vira uma história sobre as cicatrizes psicológicas de violências na infância ligados a pedofilia e abuso doméstico. É essa guinada, indo além da busca por resolver a situação complicada do presente, que segura a trama por quase duas horas, ainda que o filme encerre com a impressão de que durou mais do que deveria.

Por um tempo, os diálogos entre Jessie e a alucinação de Gerald são um trunfo ao desenrolar todas as nuances escondidas sobre o início e a manutenção do problemático relacionamento dos dois, mas, em dado momento, se tornam apenas enfadonhos. Mesmo com problemas, o filme ganha pontos por gerar a reflexão sobre como determinadas violências não terminam simplesmente quando são interrompidas e da profundidade e complexidade de seus efeitos a longo prazo. Há um debate interessante também sobre os extremos da relação de poder pouco saudável entre homens e mulheres e a forma como isso é ilustrado indo desde a infância de Jessie até os motivos pelos quais ela era o objeto de uma fantasia sexual que envolvia a simulação de um estupro.

O filme, no fim das contas, é uma miscelânea de assinaturas tanto de King quanto de Flanagan. Há a tensão de estar preso em uma cama como visto em Misery, há um cachorro assustador como em Cão Raivoso, há a questão do abuso sexual infantil já retratada em It - A Coisa - o livro de certa forma, jamais saiu da zona de conforto do autor. O filme segue a mesma linha ao estabelecer alguns paralelos com outros trabalhos de Flanagan. Assim como em O Espelho, há poucos personagens girando em torno de uma narrativa que explica o presente usando massivamente o passado. Outro paralelo, infelizmente, é que o diretor parece ter dificuldade em dar encerramentos dignos aos seus filmes. A meia hora final do longa é dividida em 15 minutos de pura tensão (e cenas realmente de virar o estômago do avesso) e 15 minutos de escolhas cafonas e decepcionantes. Jogo Perigoso não chega a ser uma completa bagunça, mas, se fosse um pouco mais conciso e organizado, poderia figurar o panteão de produções excelentes da Netflix.

Jogo Perigoso
Gerald's Game
Jogo Perigoso
Gerald's Game

Ano: 2017

País: EUA

Elenco: Carla Gugino, Henry Thomas, Bruce Greenwood

Nota do Crítico
Bom

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