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Crítica

Xuxa e os Duendes 2 | Crítica

<i>Xuxa e os duendes 2</i> - O pior filme do ano está aqui!

Marcelo Hessel
12.12.2002
00h00
Atualizada em
21.09.2014
13h13
Atualizada em 21.09.2014 às 13h13

Tio Rafa e sua ninhada de sobrinhos consumistas

Rafa e Kira, a jardineira voadora

Galadriel que se cuide! Rainha das fadas tem que saber as palavras mágicas

A mão do Troll, o ápice do filme

Amor que consegue unir raças diferentes... contanto que uma delas seja anulada

O Omelete chegou desarmado para a exibição de Xuxa e os duendes 2 - No caminho das fadas, de Paulo Sérgio Almeida e Rogério Gomes. Sem más intenções, pretendia avaliar a película com o distanciamento necessário - e entender a fonte do sucesso da estrela, que, desde 1999, lidera índices de bilheteria no país; alias, como Marcelo Forlani, nosso correspondente em Londres, fez magistralmente em duas oportunidades, com Xuxa Pop Star (2000) e Xuxa e os Duendes (2001). Não vou rir, pensei na ocasião da cabine de imprensa. No entanto, a missão de permanecer imparcial durou apenas alguns fotogramas.

 

As luzes se apagam.

Trailer de As duas torres.

Começa a projeção.

No filme, crianças brincam na sala. Tio Rafa (Luciano Szafir) recebe um telefonema suspeito, precisa sair de casa urgentemente. Deixa a molecadinha sozinha. De repente, surge a bruxa Téia (Karen Acioly), apavorando os pequenos, atrás do choro que consumará uma terrível poção do Mal. Nanda (Debby Lagranha), uma das crianças, liga para a sua amiga Kira (Xuxa), duende da luz, escondida no mundo dos humanos na pele de uma simpática jardineira. Quando Kira chega ao socorro de seus amigos, assim como Tio Rafa, a bruxa já desapareceu.

Até aí, percalço algum.

A presença da menina Thainá Medeiros, surda-muda, no papel de uma das crianças, evidencia a louvável preocupação atual de Xuxa: abandonar a fórmula juvenil de filmes como Pop Star e retomar o contato com aqueles que lhe garantiram o epíteto de Rainha dos Baixinhos na televisão dos anos 80. Se o roteiro já se mostra um tanto previsível, não há problema: a função básica do filme é ministrar lições de amizade de forma didática ao seu público-alvo. Aliás, vale ressaltar, nenhum sinal da melodia-tortura Duuuueeeeeeendiiisssssss, hit de 2001. O caminho até o fim da película promete ser indolor, enfim.

Mas começam logo a aparecer elementos incômodos. As famosas mensagens dos patrocinadores, na forma da propaganda de escola de inglês e de bolacha recheada, ganham o primeiro plano de forma descarada. Os exemplos mercadológicos não se repetem mais até o final do filme, mas a situação começa a ficar desconfortável.

Kira se aproxima do cético Rafa, explica que bruxas de fato existem, assim como fadas, elfos e duendes. Pinta um clima. Fica difícil dissociar a ficção da realidade, a figura das personagens dos verdadeiros mãe-solteira-pai-postiço da pequena Sasha. O filme começa a passar pelas primeiras dificuldades.

A engrenagem degringola quando são introduzidos o restante das personagens e a trama de fato. A tal poção do Mal produz um feitiço que eliminará o amor de qualquer coração enamorado. Para desfazer a maldade, Kira precisa atravessar o caminho das fadas do título, até chegar ao castelo das bruxas, onde destruirá o feitiço. Assim, abre-se caminho para toda classe de clichês de fantasia, como mapas secretos e palavras mágicas (que deveriam ser ditas apenas no fim, mas todos insistem em repetir a esmo).

Surge Vera Fischer, como a rainha das fadas, com cabelos brancos, lentes leitosas e maquiagem de mulata. Quando a atriz anuncia (com a convicção fajuta dos atores que não acreditam nos próprios diálogos) que Kira apenas chegará ao castelo das bruxas voando, desaparece qualquer boa vontade - e o filme desmorona. Começam a aparecer erros, grotescos, das categorias mais variadas. Se o original de 2001 possuía, ao menos, alguma qualidade técnica, a continuação esbanja defeitos visuais e narrativos. A cenografia, com cones, brilhos e fumaças, mostra-se equivocada. Os efeitos especiais das fadas voando parecem tirados de um comercial das lojas Marabraz.

Personagens dispensáveis, como o duende do tempo ou o duende veloz, entram e saem de cena de forma vergonhosamente desordenada. A comediante Cláudia Rodrigues, no papel de uma fada trapalhona, salva-se até o momento em que sua única piada perde a graça. E, enfim, quando Xuxa encontra-se perdida no meio de uma floresta, a película atinge ao auge do absurdo. Um monstro gigante de pelancas, de nome Troll, agarra a heroína. Em dois segundos, o cenário muda para uma pedreira, no melhor estilo Jaspion. Aliás, as referências culturais saltam aos olhos. A Xuxa voadora lembra os efeitos especiais de Superman (de Richard Donner, 1978), já o mostrengo não poderia ser mais parecido com King Kong - com uma estética piorada.

A partir dessa seqüência que já nasce clássica, o filme se arrasta. São poucas as passagens memoráveis, mesmo porque as gargalhadas incontroláveis turvam a minha visão diversas vezes. Luciano Szafir combate um gárgula cuja fantasia deixa o zíper à mostra. O castelo das bruxas explode como numa maquete caseira. Não se sustenta nem a mensagem que Xuxa diz transmitir. Segundo a atriz, o enfoque do filme é o amor que consegue unir raças diferentes. De fato, o roteiro esboça um romance entre uma bruxa (Deborah Secco) e um elfo (Thiago Fragoso). Mas a idéia implode quando o desfecho preconceituoso exibe a bruxa transformada em fada. Em outras palavras, o amor inter-racial é aceitável, desde que um dos lados ignore a sua herança cultural.

Vale destacar que Xuxa já soube como trabalhar enredos fantasiosos. No longínquo ano de 1988, Super Xuxa contra o Baixo Astral (de Anna Penido e David Sonnenschein) mesclava originalidade em seu argumento - um vilão que queria pintar o mundo de cinza - com um bom desenvolvimento épico, boas personagens e um clímax na medida. Agora, o intragável Xuxa e os Duendes 2 vale apenas como motivo de um divertido escracho. Encarado com o devido humor negro, rende ótimas risadas. Se continuar assim, a Rainha dos Baixinhos promete invadir outro reinado: vai bater Ed Wood, o Rei do Trash.

Nota do Crítico
Ruim