Vlado - 30 Anos Depois | Crítica
<i>Vlado - 30 anos depois</i>
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A imagem que a maioria das pessoas guarda de Vladimir Herzog (1937-1975) não é das mais dignas: rosto inchado, peito nu, cinto preto enrolado no pescoço, preso à grade de uma cela do DOI-Codi. O significado dessa imagem sinistra, porém, é importantíssimo para a história recente do Brasil. O assassinato do jornalista, que o regime militar toscamente fez passar por suicídio, intensificou o repúdio à ditadura que ensaiava a abertura no alto escalão mas perdia o controle dos porões. Vlado, como era conhecido pelos amigos, se imortalizou mártir da liberdade de imprensa.
O documentário Vlado - 30 anos depois, de João Batista de Andrade, reconstitui os momentos mais dramáticos dessa trajetória. Antes mesmo do letreiro de abertura, o diretor se preocupa em dar uma vida ao ícone: família, personalidade, preferências políticas, humores... O homem Herzog, porém, logo dá espaço ao jornalista engajado. Familiares como a esposa Clarice, amigos de colégio como Ruy Ohtake, de redação como Fernando Morais, Paulo Markun e Rodolfo Konder relembram as passagens mais importantes da carreira do iugoslavo de Osijek que veio criança para o Brasil e aderiu ao jornalismo em 1959.
Eram os meses de repórter em O Estado de S. Paulo, em seguida, redator, chefe de reportagem. Seis anos depois, já nos tempos de chumbo, Herzog se exilou em Londres, onde se especializou em cinema e telejornalismo na BBC. De volta ao Brasil uma semana depois da instalação do AI-5, em 1968, colaborou na área de cultura da emblemática revista de opinião Visão. Ajudou, daí, a criar na TV Cultura um noticiário com responsabilidade social - decisão que inflamou os aquartelados. Foi do estúdio da Cultura que Herzog recebeu a ordem para se apresentar no DOI-Codi, de onde não saiu vivo.
Antes de 1975, ele já era visto pelo regime como perigoso comunista. Era de fato ligado ao PCB, mas, assim como o núcleo do partido, não se engajou na luta armada. Preferia o cinema de ideologia - de onde o conhece Batista de Andrade, mais famoso por seu trabalho na ficção, como O homem que virou suco (1981). O cineasta consegue tirar da breve relação bons momentos para rechear seu documentário. Tem, como se diz, conhecimento de causa. Mas isso não oculta as imperfeições de Vlado - 30 anos depois.
Apegado demais aos depoimentos dos jornalistas presos na mesma época, o filme peca na pesquisa. Não ouve ex-oficiais, não procura o outro lado, não arranca um mea-culpa que acabaria com a versão do suicídio. Falha também na busca por imagens de arquivo e documentação. Quando tem contato com a papelada oficial do regime contra Herzog, passa ligeiro demais. E a onipresença dos entrevistados se agrava com as escolhas formais do diretor. Com uma câmera digital na mão, ele fecha closes em rostos em nível epidérmico. Pode parecer preciosismo, mas não é. Assistir a poros em ação na telona do cinema não é a coisa mais agradável do mundo.
Vlado - 30 anos depois se revela uma homenagem de admiradores a um homem que, sem dúvida, merece ser admirado. Mas um pouco de gana investigativa (e bom senso estético) não faria mal.
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