Filmes

Crítica

Terra dos Mortos | Crítica

<i>Terra dos mortos</i>

Érico Borgo
21.07.2005
00h00
Atualizada em
02.11.2016
12h08
Atualizada em 02.11.2016 às 12h08

Terra dos mortos
George A. Romero´s
Land of the Dead

EUA, 2005
Terror - 93 min

Direção e roteiro: George A. Romero

Elenco: Simon Baker, John Leguizamo, Dennis Hopper, Asia Argento, Robert Joy, Tony Nappo, Shawn Roberts, Pedro Miguel Arce, Sasha Roiz, Krista Bridges, Alan Van Sprang, Phil Fondacaro, Bruce McFee, Jennifer Baxter

Imagine o que aconteceria se Alfred Hitchcock estivesse vivo e resolvesse lançar um novo filme de suspense depois de duas décadas sem produzir nada no gênero. Seria uma sensação, não?

A suposição é apenas para ilustrar a dimensão do que os fãs de George A. Romero, cineasta genial, estão sentindo com o lançamento de Terra dos mortos (Land of the dead, 2005). Aos 65 anos de idade, o diretor decidiu deixar sua aposentadoria de lado e voltar ao gênero que ajudou a criar: os filmes de zumbis.

Mortos-vivos, claro, sempre existiram de uma forma ou de outra na literatura e no cinema, mas foi Romero o criador da mitologia e das regras do universo dessas criaturas no seminal A noite dos mortos vivos (Night of the Living Dead, 1968), obra-prima em preto e branco, e suas continuações O despertar dos mortos (Dawn of the Dead, 1978) e O dia dos mortos (Day of the dead, 1985).

Trinta e sete anos depois que a primeira mão pútrida brotou da terra, os mortos-vivos ainda procuram carne humana fresca, movem-se lentamente e precisam ter seus cérebros avariados para encontrarem seu fim. Cineastas competentes até buscaram maneiras de revigorar o gênero, de olho nas geração videogame de hoje em dia, e encontraram sucesso com os mortos rapidinhos de Extermínio e Madrugada dos mortos. No entanto, a modificação foi meramente rítmica. A tarefa de colocar as criaturas no século 21 coube novamente ao mestre Romero.

Em Terra dos Mortos, o cineasta apresenta ao mundo a primeira evolução verdadeira dos zumbis. Os fétidos cambaleantes agora são capazes de raciocínios simples e do uso de ferramentas, tornando-se uma ameaça muito maior aos humanos sobreviventes. Liderados pelo morto-vivo chamado Grandão (Eugene Clark), os mortos começam a entender sua força e buscar vingança contra os humanos opressores.

Mas o grande mérito do filme é explorar novamente os problemas da sociedade moderna utilizando inteligentíssimas situações metafóricas. Na história, os mortos estão espalhados pelo planeta e os humanos sobreviventes se mantêm protegidos em cidades-fortaleza. Essa organização feudal remonta à Idade Média, mas apresenta uma perturbadora - e moderna - constatação. Os poderosos aristocratas vivem em torres de vidro imponentes, cercados de exércitos particulares e vivendo em ostentação e negação. Enquanto isso, os indesejados, os desafortunados, ocupam o perímetro de tais construções e fazem o trabalho sujo: varrem as cidades dominadas pelos zumbis a bordo de um caminhão blindado em busca de mantimentos para abastecer as fortalezas.

A estrutura na qual os abastados vivem, liderados pelo poderoso Kaufman (Dennis Hopper, mistura de George W. Bush com Donald Trump), imediatamente lembra a crítica ao consumismo de O despertar dos mortos. No entanto, apesar desse elemento também estar presente no novo filme, aqui é a desigualdade de classes e as relações imperialistas que estão no centro do debate. Há os ricos, a classe operária e os zumbis terceiro-mundistas, sendo que os últimos assistem impassíveis ao extermínio de seus irmãos enquanto os recursos de suas cidades são extraídos. Deu pra entender aonde Romero - o brilhante Romero - quer chegar?

Produção esmerada

Graças ao orçamento de 15 milhões de dólares - merreca para Hollywood, mas uma fortuna incalculável se comparada aos demais filmes do diretor - Romero consegue aqui também criar seu filme mais elaborado até hoje. A escala da produção é grandiosa e os cenários são imponentes, mas a atmosfera continua exatamente a mesma dos antológicos trabalhos prévios do cineasta. A maquiagem e os efeitos especiais, criados por Greg Nicotero e Howard Berger, também ganham em realismo, continuando o trabalho de Tom Savini - o criador dos cadáveres ambulantes de Despertar dos mortos e Dia dos mortos. Aliás, tanto Savini quanto Nicotero fazem pontas no filme como zumbis. Além deles, Simon Pegg e Edgar Wright, astro e diretor da comédia-homenagem Todo mundo quase morto, também aparecem devidamente apodrecidos.

O dinheiro também garantiu atores competentes para o velho diretor. Simon Baker (O chamado 2) vive o corajoso Riley, líder dos mercenários que suprem a cidade de Fidler´s Green; John Leguizamo (Império, Moulin Rouge) interpreta o latino ambicioso Cholo, segundo em comando; Asia Argento (Triplo X), filha do lendário mestre do horror Dario Argento, faz uma prostituta com treinamento em combate que se vê no meio de uma disputa de poder.

Enfim, mais uma vez George A. Romero apresenta uma produção que reúne bons sustos com uma história relevante para os dias atuais. Vinte anos depois, ele prova que continua tão contestador quanto no início de sua carreira e que ainda tem muito a dizer e mostrar. De fato, já expressou até o desejo de continuar sua cinessérie... e desta vez a guerra deve ser o mote. Tomara apenas que não leve mais vinte anos.

O mundo definitivamente precisa de mais Romeros.

Nota do Crítico
Ótimo