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Créditos da imagem: It: Capítulo Dois/Warner/Divulgação

Filmes

Crítica

It - Capítulo Dois

Continuação deixa de lado o terror de traumas sociais e funciona melhor no lúdico

Marcelo Hessel
05.09.2019
11h02
Atualizada em
05.09.2019
12h33
Atualizada em 05.09.2019 às 12h33

Como poderia se esperar de um filme de palhaço, é a lógica do parque de diversões que rege It - Capítulo 2. Enquanto o filme anterior se fazia num crescendo de expiações de traumas de infância, a continuação oferece uma variedade de situações de susto que se assemelha mais a um cardápio completo de atrações - ou, para ficar nas analogias de circo, uma montanha-russa de criações de expectativa e entregas.

Antes de mais nada, isso é reflexo do sucesso do longa de 2017 e da prioridade que o cinema de horror tomou dentro da cartela de filmes-eventos da Warner Bros. Se It 2, com seus 169 minutos de duração, parece frequentemente uma demonstração extravagante de excessos, é porque o diretor Andy Muschietti ganhou do estúdio essa prerrogativa. O resultado é uma adaptação de fã da obra de Stephen King, que está menos preocupada em limar as gorduras do texto original do que em concretizar suas fantasias. E uma vez que o horror tem agora esse status de maistream, It 2 traz consigo o vício das narrativas inchadas e longas do blockbuster contemporâneo.

De certa forma, é como se It - Capítulo 2 prescindisse do filme anterior, porque o Clube dos Otários volta a Derry na continuação revisitando, explicando e aprofundando muita coisa do passado, a título de exposição. O elenco adulto é um encontro curioso de estrelas alinhadas, que orbitam em torno do seu núcleo cômico, a dupla Richie (Bill Hader) e Eddie (James Ransone), e por conta dessa combinação de astros fica a impressão de que ela por conta própria bastaria para sustentar a narrativa. Muschietti não se faz de rogado e dirige It 2 como se fosse o último filme de terror de sua carreira, buscando aproveitar esse elenco em mil oportunidades de susto com efeitos práticos, prostéticos, criaturas de computação gráfica.

O elo fraco do Clube não seria outro, portanto, senão o Ben vivido pelo neozelandês Jay Ryan, por ser o nome menos conhecido dentre os atores que carregam consigo ao longo do filme um protagonismo que exige interesse do espectador. Como as vontades de Ben também vão contra às de Bill (James McAvoy) - e o triângulo amoroso de It 2 nunca parece muito convincente, por já chegar desbalanceado - sua tarefa de competir em empatia com os demais termina bastante inglória. No mais, Ryan e seu arco não têm o jogo de cintura ou a vocação para o lúdico que um filme como It 2 parece exigir.

Porque a forma encontrada por Muschietti para tornar It - Capítulo 2 menos pesado, nos seus excessos, é justamente a busca pelo lúdico. Isso está nas piadas autorreferentes com King (a ponta que o escritor faz, a brincadeira de transformar Bill num roteirista ruim de escrever finais), está na metalinguagem (a ponta de Peter Bogdanovich no começo, a bebida entregue a Hader na coxia do stand-up, o absurdo das ilusões de Pennywise que não escapa aos atores na cena do restaurante). Daria para dizer, aliás, que o filme funciona muito mais quando faz humor do que nos sustos - porque é a comédia que soa mais bem localizada aqui, como se fosse a sua vocação mesmo, enquanto os pavores, sociais e geracionais, eram mais fortes no filme anterior. It 2 precisava mesmo se diferenciar, e ninguém pode acusar o diretor argentino de dividir o livro em dois para entregar mais do mesmo.

Aliás, uma das cenas que poderia muito bem ser cortada - na casa de espelhos do parquinho de Derry, desnecessária do ponto de vista do andamento da trama - só existe para pontuar essa lógica da metalinguagem. Primeiro, evidentemente, pelo caráter lúdico dos sustos em um parque de diversões. Segundo, pelo jogo de espelhos. Se formos atentar para essa coincidência e tomá-la como um paradigma - cenas de sala de espelhos em Missão: Impossível, Cam, John Wick - o melhor que Hollywood tem produzido hoje em matéria de cinema de gênero passa invariavelmente pela realização da autoconsciência e da autorreferência.

Nota do Crítico
Bom