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Crítica

It - A Coisa | Crítica

Adaptação evoca tom aventuresco de Stephen King sem esquecer de aterrorizar

Thiago Romariz
06.09.2017
15h36
Atualizada em
06.09.2017
16h03
Atualizada em 06.09.2017 às 16h03

As cenas mais impactantes de It - A Coisa se intercalam entre sequências de terror intensas e alívios cômicos imediatos. Em nenhum momento o filme de Andy Muschetti busca ser apenas um gênero, um tipo de experiência. A mistura entre horror e comédia dá uma cara aventuresca à adaptação, que mesmo com um elenco recheado de crianças e aparente leveza, explora problemas como abuso, luto e depressão - tudo isso embalado na figura de um novo Pennywise, tão assustador quanto o retratado por Tim Curry, há mais de 20 anos.

A história se distancia do telefilme cult dos anos 1990. Aqui, acompanha-se as aventuras do Clube dos Perdedores em 1984, crianças marginalizadas dentro da escola e que compartilham de problemas importantes dentro de casa. O sumiço de Georgie, irmão do protagonista Bill, desencadeia uma série de desaparecimentos da estranha e pequena cidade de Derry. Ao lado dos colegas, o garoto tenta superar o luto investigando o sumiço do caçula. Nessa “aventura”, Bill e os amigos dividem experiências e passam por transformações vindas do medo que assombra a vida de cada um.

A ideia do roteiro, que tem dedo de Cary Fukunaga (True Detective), é explorar esses dilemas das crianças para construir a empatia do público com o Clube dos Perdedores. Diferente da maioria dos filmes do gênero, It toma muito tempo aprofundando a relação entre eles e apresentando a vida dos principais componentes do grupo. Nisso, o longa consegue, com a ajuda do ótimo elenco, criar uma afeição do espectador com cada um deles. Porém, por baixo da fofura e das piadas cheias de palavrões, fica claro quão difícil e problemática é a vida de cada um deles. E se o segundo ato se estende um pouco mais do que devia, o terceiro consegue concluir de forma satisfatória (e depressiva) a jornada dos garotos e seus medos.

Toda essa exploração do medo e dos (futuros) traumas da garotada é o que dá mais significado à presença do palhaço Pennywise. Ele é “apenas” isso. O filme não se preocupa em explicar origem, motivos, nem qual o objetivo final do palhaço. O foco é a ameaça à amizade dos garotos na forma de uma palhaço maligno - e aqui não importa o que ele é exatamente. A sua aparição e presença são suficiente para criar a tensão. E isso se deve muito à performance de Bill Skarsgard: lotada de trejeitos nojentos e carregada por um olhar e sorrisos macabros. Quando está com a câmera em si, o ator rouba a cena e causa verdadeiro pavor.

A direção de Muschetti acerta ao não esconder as monstruosidades vindas do palhaço, assim como a brutalidade dos ataques às vítimas. E ainda que seja violento com crianças, o filme não ofende ou traz alguma cena desnecessária. Tudo está no lugar. A única ressalva fica para o uso exagerado de alguns efeitos de computação gráfica na movimentação do palhaço. Isso afasta a crueza com que ele é representado no restante do filme, pois a regra aqui é usar o close-up para mostrar a maquiagem bem detalhada, a saliva escorrendo e o sangue jorrando.

It - A Coisa não é uma obra-prima do medo. Isso, porém, não acontece por problemas de execução ou roteiro falho. Na verdade, essa nova versão tem uma suave aura de terror rondando um carismático grupo de crianças em busca de aventuras. E ao flutuar por diversos gêneros, o filme acerta em cheio em focar nos protagonistas e deixar que eles carreguem, ao lado de Pennywise, uma jornada memorável e de sentimentos conflitantes.

Nota do Crítico
Ótimo