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Sahara | Crítica

<i>Sahara</i>

Érico Fuks
26.05.2005
00h00
Atualizada em
08.11.2016
03h03
Atualizada em 08.11.2016 às 03h03

Sahara
Sahara
EUA/Espanha,
2005
Aventura - 124 min.

Direção: Breck Eisner
Roteiro: Clive Cussler (livro),
Thomas Dean Donnelly (roteiro)

Elenco: Matthew McConaughey, Penelope Cruz, Steve Zahn, Lambert Wilson, William H. Macy

Que tipo de paralelo se pode estabelecer entre a cena de abertura, o final da Guerra Civil americana, e o mote do resto do filme, uma aventura no deserto nos tempos da iminente 3ª Guerra Mundial? Seria a África o palco ideal dos conflitos beligerantes atuais? Seria essa mistura de pobreza e exotismo da região, armas camufladas em danças do ventre e cuscuz marroquino, o que mais atrai os branquelas da América setentrional? Seriam os gananciosos bantos e sudaneses a representação pictórica dos negros do Século XVIII? Ou tudo não passa de propaganda ideológica disfarçada de filme, na qual os interesses pelo ouro negro e pela supremacia no comando da nova ordem mundial vêm com um turbante que esconde a maldade e mostra apenas o lado benevolente de um panfleto político com cara de Indiana Jones?

Pois é. A quantidade de embates e reviravoltas, mergulhados em rajadas de metralhadoras e uma série de malabarismos improváveis, dignos de um típico filme de ação, servem muito mais pra encobrir estas dúvidas e fazer o espectador ter a certeza de que está vendo o filme apenas pra se divertir. Jogue muita areia aos olhos de seu público, assim ele terá uma visão embaçada de tudo o que está acontecendo. Lavagem cerebral? Oras, quem é que não faz ou já fez isso, usando técnicas de entretenimento para manipular os sentidos e a consciência da razão? Se Sahara, filme do estreante Breck Eisner, é assim, pelo menos não é o único neste deserto criativo hollywoodiano.

O filme conta a história do explorador Dirk Pitt (Matthew McConaughey), que embarca numa caçada a um tesouro numa das regiões mais perigosas do Oeste Africano.

Em busca do que os nativos chamam de “O Navio da Morte”, um navio de batalha da Guerra Civil desaparecido há tempos, Pitt e seu parceiro Al Giordino (Steve Zahn) acabam encontrando em sua jornada a Dra. Eva Rojas (Penelope Cruz), a Madre Teresa de Calcutá pela qual todo enfermo gostaria de ser examinado. Ela estuda o surgimento de uma epidemia misteriosa na região, e o destino acaba unindo o espírito aventureiro e a bondade samaritana quando ambos os lados percebem a ligação entre o navio e várias mortes misteriosas, na mesma área.

Ainda que de leve e com o rosto bem limpinho, é justamente o tom despótico e espartano da fita que traz analogias do ponto de vista político. Não dá pra tapar o sol com a peneira que se trata de uma produção da era-Bush, e a região inóspita lembra bastante os registros jornalísticos do que sobrou do Afeganistão. Afinal, o que os estadunidenses estão fazendo na trama nada mais é do que levar a cura a um povo tão sofrido e miserável das dunas, que vive sob o domínio do mal, um ditador conivente com o tráfico que adora exibir pelas ruas sua coleção de carros antigos. E a dupla dinâmica de desbravadores, unida do córtex ao neo-córtex numa química infalível, inteligência einsteiniana com beleza adoníaca, não lembra em nada as trapalhadas dos soldados norte-americanos no Iraque.

Sahara quer mostrar a todo custo que o americano é, antes de tudo, um forte. O filme justifica o intervencionismo da potência na aridez das desigualdades do planeta. Não através de um pedido de desculpas, muito pelo contrário. Ainda que sob a ótica do inverossímil, o filme estabelece como plausíveis as iniciativas de invadir regiões em confronto étnico. É como se estivesse dizendo que o Terceiro Mundo é ruim com os ianques, pior sem eles. Somente a nação rubro-ciânica para estabelecer o equilíbrio nesta bola áspera chamada mundo. Sua onipresença, literalmente, se explica para salvar a Mãe Natureza. Entre uma piadinha e outra na sua mise-em-scène, sobram bobagens como o discurso pseudo-ecológico de que eles não podem deixar repetir o desastre ambiental de Chernobyl (!!).

Colocando à exaustão retratos da couraça de um povo heróico, Sahara no fundo quer encobrir evidências naufragadas de uma nação ressentida. Tem-se a impressão de que o filme foi feito para pagar dívidas com os mais indignados. Um acerto de contas às custas de muita bala. É nesses excessos cênicos que dá pra perceber a alegoria de um exército que, estando na África ou em qualquer escombro desconhecido do mundo, perdeu sua identidade. Perdeu sua vocação de ser líder. O que sobrou foi apenas o registro de um ufanismo fossilizado. Apesar da contundência desse tiro de misericórdia, e talvez por causa dela, o espectador merecia muito mais do que um apanhado de gracinhas alienantes. Afinal, a paz no mundo tão hasteada pela tríade perfeita por enquanto é só uma miragem.

Nota do Crítico
Regular