Queridinha | Crítica
<i>Queridinha</i>
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Se fosse feita uma eleição aqui no Omelete dos filmes mais esquisitos do ano, Queridinha (Petite Chérie, 2000) seria um potencial candidato ao título.
O arrastadíssimo longa narra a história de Sibylle (Corinne Debonnière), uma feia e tímida mulher de 30 anos de idade. Virgem, ela ainda recebe o boa noite dos pais na cama e vive sonhando com o homem que vai tirá-la dali. Seu refúgio são os romances açucarados que ela lê no trem, no caminho entre o trabalho e sua casa no subúrbio.
É numa dessas viagens que ela conhece Victor (Jonathan Zaccaï), um bonito rapaz de terno azul e camisa riscadinha combinando. Como ele puxa conversa, ela toma coragem e o leva para casa. Quer fazer amor pela primeira vez. O objetivo de Sibylle é adiado pela chegada repentina de seus pais, o que força Victor a fugir pela janela. No entanto, o breve encontro foi suficiente para estabelecer uma estranha ligação entre a feiosa e o misterioso jovem, que no dia seguinte já é apresentado aos pais dela. Não tarda para que os dois estejam casados e morando na mesma casa que os pais da moça.
Porém, a rapidez dos eventos também é espelhada pela mudança de Victor. De promissor marido ideal ele se revela um tremendo chato e um perdedor nato. Não gosta dos móveis do quarto e do carro comprados com o dinheiro do sogro. Também já não cumpre com as "obrigações conjugais", forçando a tonta Sibylle a rebolados desengonçados para conseguir uma ereção. Os dias passam e Victor - ainda com o mesmo terno azul - domina totalmente a apática família, que parece incapaz de qualquer ato para livrar-se do sujeito.
O drama de Anne Villacèque é uma crítica à sufocante sociedade francesa, mas, segundo a diretora, poderia acontecer em qualquer lugar. Sua inspiração veio de uma manchete de jornal, que alardeava um evento semelhante ao único momento verdadeiramente significativo do filme - ocorrido durante os segundos finais - que mostra como a apatia é perigosa, já que esconde sentimentos enterrados que podem irromper de uma só vez com conseqüências imprevistas.
Curiosamente, é possível classificar a produção como uma espécie de anti-Amélie Poulain. Enquanto a personagem de Audrey Tatou vivia tentando mudar o mundo para torná-lo mais feliz, Sibylle aceita impassiva qualquer sina, mesmo que ela tenha controle e forças para resistir.
Enfim, um filme estranhíssimo mas interessante. Pelo menos para escapar da massificada produção que inunda os multiplexes todas as sextas. Ir ao cinema apenas porque a propaganda da TV é boa, ou os astros são bonitos, é tão nocivo quanto a pacata vida de Sibylle.
Queridinha
Petite Chérie
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