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Crítica

O Homem que Copiava | Crítica

<i>O homem que copiava</i>

Marcelo Hessel
12.06.2003
00h00
Atualizada em
03.11.2016
10h03
Atualizada em 03.11.2016 às 10h03

Toda genialidade pressupõe uma certa pretensão, concorda? O sujeito não pode ser o melhor naquilo que faz sem ser ambicioso. Mas sabe o Jorge Furtado? Aquele, roteirista e diretor gaúcho de curtas premiados, que estreou em longas em 2002 com Houve uma vez dois verões. Então. O Jorge Furtado é um paradoxo: gênio... da despretensão. É sério! Tem uma escrita que parece intuitiva. Filma como se fosse uma casualidade, como se estivesse reunindo os amigos para jogar cacheta.

Produção boa é aquela que o pessoal se diverte fazendo, você sabe. E sempre acaba saindo obras cuidadosas, originais. O curta Ilha das Flores (assista aqui) é de 1989, enquanto O Sanduíche é de 2000. O primeiro faz uma severa denúncia social, o segundo resume na frase “Não seria ótimo? Seria...” sua brincadeira de metalinguagem. Ambos parecem bem informais. Mas quem disse que temas complexos pedem formatos rígidos? Assim, como quem não quer nada, fica muito mais eficiente.

O Homem que Copiava, de 2003, o segundo longa na carreira, deu um certo trabalho. Orçamento generoso de 3 milhões de reais, patrocínio de magnata, elenco global, sabe como é... rola uma pressão. Mas Furtado segue o passo de sempre. Nada de parto sofrido. O primeiro rabisco no roteiro aconteceu no dia 15 de outubro de 1996. Era uma terça-feira. O retoque final, só em 18 de setembro de 2001, seis dias antes de começar a filmagem. Era terça também, às dez e cinqüenta da noite. Pode perguntar pro Jorge.

E essa leveza aparece na tela. Mas não é qualquer nota, não. Nem coisa terminada nas coxas, pelo contrário. Cada centavo gasto e cada minuto pensado transparecem num trabalho de carinho artesanal.

Liga, acende, arruma, tampa e vai

Lázaro Ramos vive André, o nosso herói e narrador. André, vinte anos, vive com a mãe, uma mulher que arrasta os chinelos e repete toda noite, antes de dormir, que a TV dá um soooono. André é operador de fotocopiadora. Fala assim para impressionar a mulherada, mas só se elas perguntarem primeiro. Seu trabalho é tirar xerox mesmo, na papelaria J. Gomide, na Rua Presidente Roosevelt, Quarto Distrito de Porto Alegre. André logo descobre: Roosevelt foi presidente dos EUA, famoso pela Doutrina Roosevelt. Mas André não teve tempo de saber o que era a Doutrina. A informação já estava duplicada e devolvida pro cliente.

A Luana Piovani faz a Marinês, que trabalha com André na papelaria. É daquelas calipígias que deitam na cama quando vestem o jeans, senão entala no quadril. E não fecha. Já o Cardoso – feito na medida pro Pedro Cardoso, melhor papel do cara em anos, mas não é autobiográfico, não - sabe que Marinês só cisca e atiça, mas ele não desiste. Cardoso é baixinho demais para o mulherão, mas isso não o impede. Juntos, André e Cardoso constituem a melhor dupla nacional de heróis errantes desde Chicó e João Grilo (de O Auto da compadecida). Um dia, no boteco, Cardoso entrega.

(Cardoso) - Você não sabe, parei de fumar faz dois dias. Me sinto até mais disposto.

(André) - E por quê?

(Cardoso) - Marinês disse que não curte gosto de cigarro.

(André) - Parou por causa dela?

(Cardoso) - Foi. Ela disse que o homem da vida dela precisa ser rico e não-fumante.

(André) - E você pobretão desse jeito... Deixa de ser burro, Cardoso. Primeiro ganha na loteria, depois você larga de fumar.

Pois é. Contra essa André está vacinado. Marinês estufa o peito ao se gabar do tamanho do quadril, mas ele só tem olhos para Sílvia, a balconista, tão fofinha quanto a própria Leandra Leal. Órfã de mãe, ela mora com o pai, no apartamento em frente ao de André. O voyeur se apaixona. Mas como chegar na menina? André decide comprar alguma coisa na loja, que também se chama Sílvia. Loja de artigos femininos.

(André) - Procuro um presente pra minha mãe.

(Silvia) - Temos aqui camisolas, esses chambres de chenile...

(André) - Quanto é o chambre, o florido?

(Silvia) - Trinta e oito reais.

(André) - Hmmm... vou dar uma pesquisada, talvez eu volte pra comprar o chambre.

Pronto. André, que recebe 310 reais por mês, 290 com os descontos, agora precisa arrumar 38 reais que não lhe sobram, para não passar vergonha na frente de Sílvia. Mas eis que Seu Gomide, dono da papelaria, compra uma copiadora nova, colorida. André pensa muito, muito, antes de copiar dinheiro para comprar o chambre. Liga, acende, tira a gaveta, põe o papel. Primeiro solta bem, pra não grudar. Põe a gaveta na máquina, levanta a tampa, põe o dinheiro na marca. Aí fecha a tampa devagar, para não tirar nada do lugar. Apertando esse botão aqui você está dizendo: vá em frente, minha filha, está tudo certo. E ela vai. Essa luz é a melhor parte.

Bom, agora você, leitor, precisa ir lá conferir o resto da história por conta própria.

James Ramos ou Lázaro Stewart?

Tem outra coisa sobre o Furtado. Ele cita Millôr, que disse uma vez: “Quando tu copias alguém é plágio, quando tu copias trezentas pessoas é pesquisa”. É divertido pescar as referências que aparecem em O Homem que copiava. As citações literárias são várias, de acordo com a clientela da papelaria. E tem ilustração de Keith Haring, soneto de Shakespeare – e diálogos tarantinescos, aqueles bem cortantes, aparentemente banais.

O gaúcho até brinca: “Mostrei o primeiro tratamento do roteiro para o Giba (Assis Brasil, montador) e ele me perguntou se eu já tinha visto Não Amarás (Krotki film o milosci, 1988), do Kieslowski. Eu não tinha visto. Vi e tinha mesmo algumas coisas parecidas. Ainda tem, mas tinha mais, acabei mudando bastante o roteiro.”.

Talvez não seja um desdobramento proposital dos realizadores, mas a vida fragmentada em flashes rápidos do André serve de metáfora ao filme. Tudo ali é pedaço de alguma outra coisa. O próprio formato da obra é uma colagem, mistura de gente com animação, a cargo do igualmente gênio despretensioso Allan Sieber. E sabe o quê? No fim, dessa salada sai uma coisa completamente diferente de tudo.

Mas a mistura pode desagradar, mais exatamente lá pela metade do filme. A primeira parte ensaia um charmoso retrato de temática social. André não chega a ser o negro encarcerado a quem negam um banho, como no curta de 1986, O Dia em que Dorival encarou a guarda (assista aqui) mas encarna também aquela minoria desprezada pelas regras racistas do capitalismo. Essa primeira parte tem muito a ver com a atual produção nacional de “contrapartida social”.

Mas daí acontece a guinada. Uma noite, André espia e percebe que as coisas no apartamento de Sílvia estão esquisitas. Começa a tensão. E tudo toma um rumo policialesco. Chega a ser uma farsa engraçada. Todos os clichês do gênero estão distribuídos milimetricamente: do roubo a banco às mortes planejadas, das bombas aos planos de fuga. Tem até perseguição em ponte elevatória, acredite! O que era rapadura vira suco de limão. Para o bem ou para o mal, isso é você quem decide.

Assim era num grande clássico, Janela indiscreta (Rear window, 1954), do Hitchcock. Se bobear, essa pode ser a grande referência do filme! A vida de André muda, como a do fotógrafo Jeff, vivido por James Stewart, quando a lente do binóculo revela o crime inesperado. O filme de Hitchcock transforma a análise comportamental em suspense eletrizante. Com Furtado acontece a mesma coisa.

Bacana... Mas melhor ainda é o jeito como André, já nos primeiros instantes, escolhe cada um dos espectadores para ser seu amigo confidente. De igual pra igual mesmo, sem discurso nem filosofice. Sempre de jeito despretensioso, lembra? Você não vai deixar ele falando sozinho, vai?

Nota do Crítico
Excelente!