Invasao

Créditos da imagem: Divulgação

Filmes

Crítica

Invasão ao Serviço Secreto

Terceiro filme da série se impregna do clima choroso de desconfiança política nos EUA

Marcelo Hessel
13.11.2019
11h44

Como uma boa série de filmes pautada mais pelas suas atrações do que por um arco narrativo, os thrillers de ação de Gerard Butler como o guarda-costas do presidente dos EUA estão à mercê da maré. Se o segundo longa, Invasão a Londres, pegou em 2016 a onda dos suspenses de vingança e testou os limites da classificação etária com sua ação bem violenta, agora o terceiro, Invasão ao Serviço Secreto, se vê impregnado do clima de desconfiança política no país.

Dos três filmes, este talvez seja o que mais se aproxima de uma fórmula de trama de conspiração e whodunit: logo no começo o presidente Allan Trumbull (Morgan Freeman) descobre que alguém no seu gabinete está vazando informações para a imprensa, primeira pista de uma reviravolta que colocará rapidamente o chefe de segurança Mike Banning (Butler) como o principal suspeito de arquitetar e executar um atentado contra o seu patrão.

O mistério não demora a ser resolvido, o que conta a favor do filme porque afinal é um mistério muito manjado; a escolha de Danny Huston para fazer o opinioso empresário armamentista lembra a escalação de Jeroen Krabbé para viver o amigo de Harrison Ford em O Fugitivo, sendo tanto Huston quanto Krabbé aqueles atores de sobrancelhas arqueadas que se prestam tão facilmente a papéis diabólicos. Nos seus melhores momentos, Invasão ao Serviço de Secreto tem mesmo um pouco de O Fugitivo, especialmente porque aderir ao thriller de escapada é um bom jeito de oferecer ao público um produto diferente depois de Invasão a Londres.

A correria e a ação corpo-a-corpo são o forte do diretor Ric Roman Waugh, mais um dublê de formação que acabou promovido a diretor em Hollywood, e que dá conta do recado. As cenas de combate são filmadas com impacto e a decupagem de Waugh não deixa o espectador se perder espacialmente entre tantos pontos de vista na hora dos tiroteios. É o feijão com arroz, que o diretor faz com competência. O que Invasão ao Serviço de Secreto tem de mais particular, porém, é como a precisão - que filme de ação americano hoje não é um grande elogio à eficiência militar? - se vê de repente em curto-circuito com o mal-estar político e a atmosfera de… imprecisão.

Não estamos diante de um novo Rambo - Programado para Matar, com seu discurso crítico e sua problematização da letalidade, mas fica evidente o tempo todo em Invasão ao Serviço de Secreto que há um desarranjo no ar. A realidade invade o filme desde sua premissa (o roteiro lembra a interferência da Rússia nas eleições americanas de 2016 para usar o país na sua conspiração ficcional) e algumas cenas inclusive ecoam momentos pontuais de constrangimento da administração Trump (como a coletiva de imprensa tensa que revela o desarranjo na Casa Branca; na hora me perguntei porque Morgan Freeman não tem um secretário de imprensa como o dançante Sean Spicer para poupá-lo da exposição).

Confiança é a palavra-chave aqui, e Waugh filma com a maior das cerimônias quando Freeman pede a Butler, pausadamente, que nunca mais minta para ele. Poucos filmes hoje em Hollywood - pelo menos aqueles que ficcionalizam as figuras de liderança do país - tratam a crise de confiabilidade de Trump de uma forma tão dolorida e sensibilizada. Se existe uma versão de cinema para aquela pessoa que enfrenta crises no relacionamento sempre à beira do choro este filme é Invasão ao Serviço de Secreto.

Porque afinal o relacionamento entre o presidente e o seu guarda-costas, essa dupla de afinamento tão importante, no fim não é tão diferente do relacionamento que qualquer civil tem com o presidente em quem votou; é uma troca de votos, um contrato difícil de partir. O respeito à autoridade e aos símbolos americanos, às instituições, sempre esteve no coração desta franquia, e a partir do momento em que esse elo se parte - porque ecoa-se a traição russa de Trump e as quebras institucionais da vida real - então a franquia precisa buscar seu chão em outro lugar.

Esse "chão" não seria outro senão se escorar em seus dois astros, Butler e Freeman, numa aposta que o filme faz por engrandecer suas personas (em close-ups, em planos mais longos e tempos solenes como nas cenas de quartos de hospital). É como se Waugh tratasse Freeman, especificamente, como uma figura maior do que a do próprio presidente dos EUA, porque Morgan Freeman afinal é sinônimo de confiança (sua cadência suave no falar, o olhar sempre molhado de emoção), não importa o que aconteça, ao contrário dessa instituição do Comandante-em-Chefe em 2019.

Se Invasão ao Serviço de Secreto havia começado esboçando uma trama de mistério, o filme termina numa chave de sentimentalismo (inclusive a entrada do personagem de Nick Nolte se presta a revisitar os fantasmas tipo Rambo numa expiação generalizada de culpas). Às vezes é normal ver isso em finais de trilogia porque existe sempre uma solenidade de despedida no ar, de elegia, mas aqui essas escolhas têm um peso a mais. Na falta de uma confiança no sistema político, o filme a substitui pela velha confiança na imagem hollywoodiana, no brilho dos seus astros. Aí a previsibilidade das reviravoltas do filme até faz um pouco de sentido, porque Waugh está em busca mesmo das poucas coisa em que podemos confiar hoje em dia, e uma delas é a escalação maniqueísta de atores com cara de vilão para fazer os papéis de vilão.

Nota do Crítico
Ótimo