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Crítica

Interestelar | Crítica (Marcelo Forlani)

Novo filme de Christopher Nolan é visualmente rico, mas coloca coração na frente da razão

Marcelo Forlani
05.11.2014, às 20H00
ATUALIZADA EM 29.06.2018, ÀS 02H43
ATUALIZADA EM 29.06.2018, ÀS 02H43

Christopher Nolan é um dos grandes cineastas de sua geração. Na Warner Bros. ele achou um estúdio que acredita no poder de criação das pessoas e não tem medo de dar carta-branca - ou um cheque quase em branco - para que elas possam contar suas histórias. Depois de chamar atenção com Amnésia (2000), ele intrigou o público com Insônia (2002) e caiu no batuniverso, de onde foi catapultado ao patamar de semi-deus pelos fanboys. No intervalo da trilogia Cavaleiro das Trevas vieram o subestimado O Grande Truque (2006) e o hypado A Origem (2010). Seu novo filme, Interestelar (Insterstellar, 2014) chega aos cinemas cheio de comparações com um dos maiores clássicos de todos os tempos, 2001 - Uma Odisséia no Espaço, de Stanley Kubrick. Apesar do paralelo ser fácil, ele é injusto com os dois.

Interestelar é, sim, uma ficção científica das mais puristas, cheia de questionamentos e que explora como poucos não só a ciência, mas também a humanidade e conceitos nada científicos, como fé e amor. Para criá-lo, Nolan pegou as teorias do físico Kip Thorne que seu irmão Jonathan estava roteirizando para Steven Spielberg dirigir. Depois que o diretor de E.T. - O Extraterrestre e Contatos Imediatos do Terceiro Grau se afastou do projeto, Nolan tratou de usar seu poder atual em Hollywood para conseguir os direitos e reescrevê-lo - ainda com a colaboração de seu irmão e Thorne.

Interestelar

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Neste futuro de data incerta, a Terra sofre com uma grande praga que dizimou boa parte da comida do planeta, transformando tudo em pó. A fome e sofrimento, bastante inspirados na grande crise de 1930, fazem com que a NASA opere na clandestinidade e até as missões à Lua sejam desacreditadas nos livros de história. "Não temos como justificar bilhões de dólares em gastos aqui enquanto pessoas estão morrendo de fome", diz Professor Brand (Michael Caine mais uma vez atuando sob as lentes de Nolan). Quem fica feliz em saber que a agência espacial ainda está ativa é o ex-piloto Cooper (Matthew McConaughey mantendo sua série de ótimos papéis), que tem de escolher entre ficar na fazenda com a sua família na Terra ou viajar ao espaço em busca de novos planetas onde a humanidade pode ser reconstruída.

O espaço não é verde

Compulsivo por controle, purista e meticuloso, Nolan se gaba de não ter usado chroma-key durante as filmagens. O cineasta e sua equipe estudaram antigas técnicas de filmagem, retroprojeções, filmaram em locações e construíram o máximo de sets que o orçamento permitiu. Cenas no espaço eram projetadas em imensos telões enquanto as câmeras captavam as emoções nos rostos dos atores. E funciona! Interestelar tem as melhores atuações de um filme de Nolan - e precisava disso, pois trata de temas como abandono, solidão e esperança.

E enquanto Spielberg e Scorsese já se aventuraram pelo mundo do cinema digital e 3D Nolan discursa para quem quiser ouvir que prefere fazer seus longas em película, de preferência em 70mm, daí sua predileção pelo IMAX. E como fica lindo! Se antes as salas do sistema estavam confinadas a museus e as exibições se limitavam a filmes sobre dinossauros, explorações submarinas e, claro, o espaço, Interestelar chega provando mais uma vez que tamanho é documento, sim.

Mas não vá ao cinema esperando a montanha-russa de emoções de um Gravidade (2013). Interestelar é mais contemplativo e cheio de silêncios. Apesar de não negar as raízes kubrickianas, Nolan aponta outras duas influências pesadas: o Spielberg dos anos 70 e 80 e Os Eleitos - Onde o Futuro Começa (1983), de Philip Kaufman. Nolan falou à revista Empire que queria capturar o espírito de Contatos Imediatos e Tubarão e experimentá-lo para o cinema de hoje em dia. Se funciona em vários aspectos, existe um em particular que acaba estragando parte da experiência: o vício do diretor de explicar mais do que o necessário, transformar em palavras o que já está sendo mostrado na tela.

Quando lançou 2001, Kubrick disse que esperava das pessoas que elas saíssem do cinema confusas, refletissem e voltassem para ver de novo. Espera-se de uma obra de ficção científica estes questionamentos. E se 2001 é o livro que traz estas perguntas, Interestelar é a edição do professor, já com todas as respostas.

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