Insaciável faz horror pop sofisticado a partir de história sobre compulsão
Natalie Erika James confirma olhar afiado para a linguagem do gênero
Créditos da imagem: Midori Francis em cena de Insaciável (Reprodução)
Todo mundo que assistiu a Relíquia Macabra (2020), primeiro longa-metragem da diretora Natalie Erika James, saiu de sua sessão com uma imagem gravada a ferro e fogo na cabeça: três mulheres da mesma família, representando três gerações diferentes, deitadas na mesma cama, seus corpos em estados “estrago” progressivos. É uma composição de horror densa, tanto em sua aproximação do macabro e do gótico quanto em seu significado para a história de envelhecimento e ressentimento que James estava contando. E é impossível imaginar algo semelhante aparecendo em Insaciável, o novo longa da diretora.
Isso porque Insaciável trafega em um universo completamente diferente do de Relíquia. Aqui, Hana (Midori Francis) é uma estudante de medicina complexada com o próprio corpo, um problema que também a impede de explorar a recém-descoberta sexualidade. É quando uma colega de escola a encontra por acaso num bar e divide com ela o segredo do seu próprio emagrecimento: uma pílula não estritamente legalizada, que ela chama de “The Grey”. Os efeitos são milagrosos, mas Hana – cada vez mais magra – logo começa a perceber uma presença fantasmagórica ao seu redor.
A metáfora fácil aqui é a das drogas de perda de peso que se tornaram febre nos últimos anos, e da cultura que coloca a magreza (inclusive e especialmente, a magreza extrema) no pedestal como ideal estético e de saúde. E esse pode até ter sido o impulso criativo de James, a gênese de Insaciável, mas – como tende a acontecer com toda obra que vale a pena – aos poucos essa história revela ter um recorte muito mais específico, e muito mais incisivo, sobre o assunto quente que a inspirou.
Insaciável, veja bem, é um filme sobre compulsão. Compulsão alimentar, é claro, mas acima de tudo suas concomitâncias com as ansiedades familiares, sexuais, sociais (enfim, tremendamente humanas e contemporâneas) que a transformaram em uma epidemia. A melhor qualidade do texto de James, aqui, é costurar todas as vertentes do seu filme em torno dessa ideia. Daí que os pais de Hana (Showko Showfukutei e Robert Taylor) são retratos opostos, espelhados, de uma vida guiada pela compulsão; suas aulas na faculdade giram em torno da relação com o corpo, e logo revelam uma conexão profunda com a assombração que a persegue; e sua melhor amiga (Danielle Macdonald) serve como guia para essa verve psicológica da história.
Por cima dessa exploração bem amarrada do tema, a diretora vai usando um vocabulário muito mais pop do que o esperado. Ao invés de elaboração gótica opressiva do filme anterior, aqui ela prefere trabalhar ambientes mundanos para sublinhar o que eles podem ter de assustador. As texturas confortáveis de um apartamento de classe média se transformam em superfícies para um fantasma se revelar, os halls grandiosos de uma velha faculdade se mostram meio cavernosos diante do trabalho grotesco dos estudantes de medicina que dissecam um cadáver... e por aí vai.
Até quando faz referência ao erudito, como na sua imagem final, Insaciável adota a postura de inseri-lo em um contexto pop. O diretor de fotografia Charlie Sarroff (Sorria) e a designer de produção Josephine Wagstaff (Fake) trabalham com James para permear o filme com cores dessaturadas, impondo uma plasticidade que o posiciona num universo onde todo indício do primitivo – e, portanto, do espiritual – fica enterrada sob toneladas de artifício. É um paralelo interessante para a situação de sua protagonista, com suas travas profundamente enraizadas, praticamente imperceptíveis no dia a dia entorpecido de rolagem de feed que define sua rotina.
Acima de tudo, é por isso que Insaciável confirma Natalie Erika James como um grande talento, após o assombro que foi Relíquia Macabra: sem uma olhada nos créditos, você nunca poderia imaginar que esses dois filmes vieram da mesma pessoa, mas tampouco poderia imaginá-los existindo de forma diferente da que existem.
Insaciável
Saccharine
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