Icone Fechar
Filmes
Crítica

Ironicamente, Ink perde de vista a melhor história que podia contar

Danny Boyle quer tanto fazer filme “atual” que não sabe quem são seus personagens

Omelete
3 min de leitura
16.10.2026, às 08H00.
Guy Pearce e Jack O'Connell em Ink (Reprodução)

Créditos da imagem: Guy Pearce e Jack O'Connell em Ink (Reprodução)

A relação entre o editor Larry Lamb e o bilionário Rupert Murdoch passa por uma inversão de poder fascinante durante o período recortado por Ink, novo thriller inspirado em fatos do diretor Danny Boyle. O filme abre em 1969, com o jornalista sendo cortejado e eventualmente contratado pelo magnata para transformar o desmoralizado tabloide The Sun em uma potência de vendas com inclinação popular – movimento de mercado emblemático, que se mostraria tão presciente quanto originador da progressiva deterioração de valores dentro da grande mídia nas décadas seguintes.

Mas Lamb não foi uma vítima nessa história, e esse é o melhor insight do roteiro de Ink, assinado por James Graham (Dear England). Nas mãos do dramaturgo, esta é a história de um par de homens desmoralizados, movidos por um sentimento de revanche que só inchou diante da atitude elitista de seus adversários, que testam os limites um do outro… e Lamb, no fim das contas, é quem se mostra capaz de ultrapassar os de Murdoch. De certa forma, Ink é um conto sobre o aluno superando o mentor (O Aprendiz, a biopic de Donald Trump com Sebastian Stan, é um bom paralelo), sobre como as ideias subversivas de uma geração se transformam no status quo corrosivo de outra. 

Omelete Recomenda

Só faltou alguém avisar isso a Danny Boyle, porque o venerável cineasta britânico reúne todo o poder de fogo de seus ótimos colaboradores – Alwin H. Küchler (Sunshine) na fotografia, Fin Oates (Tempo de Guerra) na montagem, Daniel Pemberton (Aranhaverso) na trilha –  e os aponta na direção contrária. Ink, como filme, se mostra deslumbrado mesmo é com a possibilidade de traçar paralelos entre o desenvolvimento da mídia marrom inescrupulosa do final do século XX e o estrago político e discursivo do século XXI. É um impulso encapsulado principalmente na irritante costura da narrativa com imagens de arquivo de Trump e outros líderes/celebridades contemporâneos.

Digo irritante porque, é claro, esta é uma linha gritantemente óbvia a se traçar – e, acima de tudo, uma linha que o público poderia traçar sozinho, se o filme o deixasse. Entrecortar a história do The Sun com imagens da ascensão de Trump e cia. não nos diz nada sobre a relação entre essas duas coisas, sobre as forças que deram a partida nesse processo histórico, sobre os homens que o guiaram, sobre o papel dos grupos que ficaram à margem dele… enfim, não nos diz nada sobre nada. Chamem-me de antiquado, mas o trabalho do contador de histórias precisa ser mais do que pegar o público pela mão, apontar o dedo para a tela, e dizer que uma coisa levou à outra.

Não, contar histórias é sobre revelar mais do que isso, e a revelação mais fascinante que existe aqui é a de como um bilionário foi passado para trás por um jornalista com sede de glória e validação. Ao menos o texto de Graham parece inclinado a pintar esse quadro, e os protagonistas de Ink igualmente – Jack O’Connell e Guy Pearce surgem na tela como yin-yang de exposição e disfarce, o primeiro deixando à vista a impulsividade de Lamb para esconder sua inteligência inescrupulosa, e o segundo pintando várias camadas de aristocracia por cima de uma figura selvagem.

As trocas entre os dois são elétricas, e Ink vira um filme fascinante nas raras ocasiões que se dedica a elas. A audácia estética de Boyle, que nunca teve pudor de misturar formatos e passear pelo metafórico em suas encenações, é inclusive bem-vinda na hora de ilustrar esses homens e as dinâmicas que os definem. Mas é pouco, principalmente quando o filme sobre jornalismo esconde lá no segundo caderno, em letras pequenininhas, o que deveria ser primeira página.

*Ink chega a cinemas selecionados no Brasil em 11 de dezembro, e ao catálogo da Netflix em 8 de janeiro de 2027.

Nota do Crítico

Ink (2026)

Duração: 116 min
Direção: Danny Boyle
Roteiro: James Graham
Elenco: Brian Gleeson, Claire Foy, Jack O'Connell, Guy Pearce, Jonathan Hyde, Georgie Henley
Onde assistir:

Comentários (0)

Os comentários são moderados e caso viole nossos Termos e Condições de uso, o comentário será excluído. A persistência na violação acarretará em um banimento da sua conta.

Escrever comentário


Ao continuar navegando, declaro que estou ciente e concordo com a nossa Política de Privacidade bem como manifesto o consentimento quanto ao fornecimento e tratamento dos dados e cookies para as finalidades ali constantes.