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Crítica

Nem Tudo é o que Parece | Crítica

<i>Nem tudo é o que parece</i>

Marcelo Hessel
04.08.2005
00h00
Atualizada em
21.09.2014
13h18
Atualizada em 21.09.2014 às 13h18

Nem tudo é o que parece
Layer Cake
Inglaterra, 2004
Drama - 105 min

Direção: Matthew Vaughn
Roteiro: J.J. Connolly, baseado em livro de J.J. Connolly

Elenco:
Daniel Craig, Tom Hardy, Jamie Foreman, Sally Hawkins, Burn Gorman, George Harris, Tamer Hassan, Colm Meaney, Marcel Iures, Kenneth Cranham, Garry Tubbs, Nathalie Lunghi, Marvin Benoit, Rab Affleck, Sienna Miller, Jason Flemyng, Michael Gambon

Os britânicos Guy Ritchie, 36 anos, e Matthew Vaughn, 34, cresceram numa Inglaterra que assistia nas ruas à luta de classes. Mal saíam da infância quando, em 1979, o Tatcherismo começou a desarticular sindicatos, promover privatizações e dizimar o Estado de Bem-Estar Social. Os dois aprenderam rápido que qualquer agrupamento, sejam punks, skinheads, hooligans ou mineiros em greve, podiam pouco contra o monstro maior: o Sistema.

Ricos e pobres, aristocratas e fracassados não se misturam. No mundo do crime, funciona da mesma forma: chefões, intermediários, fornecedores e executores cuidam, cada um, dos seus negócios. Os dois filmes de gansgterismo de Ritchie - Jogos, trapaças e dois canos fumegantes (1998) e Snatch (2000) - anarquizam esse sistema. O magnata da jogatina morre na mão dos ciganos sujos, o matador russo bate cabeça com o agiota americano... Pode ser que o cineasta tenha criado esse painel caricato e circense inconscientemente, como resposta à Inglaterra rígida da sua adolescência. Mas o fato é que esse mundo é falso. O sistema não muda e os estratos não se misturam. E Vaughn sabe disso.

Depois de produzir todos os fimes de Ritchie, ele mostra sua versão desse universo na sua estréia como diretor, Nem tudo é o que parece (Layer cake, 2004). Aqui, age-se profissionalmente - ou, ao menos, é o que dizem os personagens. A começar pelo protagonista, vivido por Daniel Craig (Estrada para a perdição), que nunca revela seu nome e se diz um comerciante, não um traficante. Ele acredita que um dia os narcóticos serão legalizados. Até lá, tentará lucrar. A trama começa quando ele se diz satisfeito - e anuncia sua aposentadoria.

Claro que, como toda aposentadoria de cinema, ela será adiada. Antes, duas últimas incumbências: tentar achar a filha viciada e perdida de um magnata e distribuir um carregamento gigantesco de ecstasy vindo da Holanda. O "comerciante" não tem como recusar. No bolo de camadas do título original, ele é o doce-de-leite. Estacionou no nível dos intermediários de negociações - está em dívida com o chefão que sempre o prestigiou e sabe que a carga é mesmo valiosa. Mais uma vez ele terá que lidar com a escória dos fornecedores, um degrau abaixo do seu. E são justamente eles que o comprometem logo no início do filme.

Começa então sua descida ao inferno, que rola ao som de clássicos ingleses dos anos 70 e 80. The Cult, Duran Duran e Rolling Stones escoltam discussões, perseguições, baladas, reviravoltas, flertes, engambelações. A cada minuto o mundo ilícito de Nem tudo é o que parece rui diante das mentiras e das dissimulações. A única coisa que resiste é a divisão de classes, claro, porque só se ferra quem está embaixo.

Em alguns momentos o estilo do diretor lembra o de Ritchie - tomadas estilosas, frases de efeito, câmeras lentas, zooms rápidos, coadjuvantes caricatos e excêntricos. Isso prejudica seu enfoque realista do tráfico. Mas pode ser só incorreção de principiante. A boa notícia é que Vaughn não se perde. Predomina o seu domínio da história, especialmente no terceiro ato, o melhor do filme, mais introspectivo, que enfoca a desilusão ao mesmo tempo faustiana e dantesca (para usar duas citações do filme) do "comerciante".

Não foi por conflito geográfico e de agenda, como alegou há algumas semanas, que Matthew Vaughn deixou a direção de X-Men 3, às vésperas da filmagem. Agora fica evidente que ocorreram divergências criativas. O inglês parece ser do tipo que faz questão de plantar suas próprias idéias. Aliás, descendente longínquo do Rei George VI, para nos atermos à idéia de classes, tem propensão aristocrática a não seguir instruções. Ele sabe o que dizer - e, neste filme, principalmente, tem o que dizer.

Nota do Crítico
Ótimo