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Incuráveis | Crítica

Incuráveis

Marcelo Hessel
09.11.2006, às 00H00
ATUALIZADA EM 21.09.2014, ÀS 13H21
ATUALIZADA EM 21.09.2014, ÀS 13H21

Incuráveis
Brasil, 2006
Drama - 82 min

Direção: Gustavo Acioli
Roteiro: Gustavo Acioli e Marcelo Pedreira

Elenco: Fernando Eiras, Dira Paes

O ursinho de pelúcia não dura nem dez segundos na cena que abre Incuráveis (2006). São quatro tiros, e lá se vai o símbolo felpudo dos enamorados. A paixão é bela no filme de estréia do roteirista, compositor e diretor carioca Gustavo Acioli, mas é também efêmera. E o urso representa um pertencimento, uma trégua, uma cura, que não serve aos dois turbulentos protagonistas do filme.

O suicida (Fernando Eiras) conhece a prostituta (Dira Paes) num bar, cena filmada no Rio Scenarium. Oferece-lhe 500 reais, e tudo o que ela tem a fazer é escutá-lo por uma noite. Até aí ninguém sabe que o homem pretende encerrar a vida com um tiro na cabeça pela manhã. Isso ele explica à mulher assim que eles entram no quarto que será cenário de quase todos os 88 minutos da película. No quarto eles conversam, acabam transando - e o mais difícil, o mais improvável, no quarto eles se conhecem.

O personagem de Eiras (prêmio de melhor ator no Festival de Brasília) procura alguém para lhe ouvir, já que durante os momentos mais importantes de sua vida não soube dizer o que sentia. A personagem de Dira quer que lhe digam o seu nome no ouvido. Uma prostituta que soube bem se expressar, dar prazer a tantos, mas nunca teve retribuição digna desse nome. Resumindo, eles se completam - não porque tenham nascido um para o outro, a coisa não é simplória assim, mas porque um pode entender o outro.

São os males da incomunicabilidade, do engessamento das relações, que no fundo servem de contexto ao filme. Ninguém é completo até que tenha achado sua metade, ainda que sua vocação seja a da eterna e incurável procura. Essa imagem da cara-metade não deixa de ser cafona, mas ela é perfeita aqui, esteticamente falando, por conta da fotografia de Lula Carvalho. Em seu primeiro longa de ficção solo, em que não opera a câmera para o pai, o diretor de fotografia Walter Carvalho, Lula assina sozinho o bonito uso das sombras. O tempo todo os corpos e as faces de Eiras e Dira surgem pela metade, envoltos pela semi escuridão do quarto.

Tentar mapear o estado de espírito dos personagens a partir da fotografia - se a abertura da janela permite vê-los por inteiro ou se a contraluz esconde completamente suas feições - pode ser um interessante jogo para o espectador. Porque certamente é um jogo para os personagens, como os próprios assinalam. Em cena, trava-se uma contenda de perde-e-ganha, disputa jogada nas palavras.

Ah, sim, as palavras. Incuráveis se baseia na peça A Dama da Lapa, de Marcelo Pedreira - e esse dado, isolado, já daria abertura para a clássica crítica do teatro filmado. Os diálogos declamados, a coreografia ensaiada, a distância média que a câmera mantém dos atores, como se respeitasse o proscênio, sem se aproximar como deveria, frequentemente dificultam a transformação de roteiro teatralizado em cinema.

Detonar o filme a partir daí seria fácil. O problema é que isso taparia a visão das suas qualidades, algumas delas citadas nos parágrafos acima. Uma indisposição desde o começo, por fim, não deixaria notar o belo e silencioso plano-contraplano que encerra o filme. Ali a câmera se mantém nos rostos do suicida, depois no da prostituta, por um tempo exato, cronometradíssimo, suficiente para captar significados que não cabem em verbo algum. Ali Acioli faz cinema.

Incuráveis
Incuráveis
Incuráveis
Incuráveis

Ano: 2006

País: Brasil

Classificação: 16 anos

Duração: 82 min

Nota do Crítico
Bom

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