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Mulher | Crítica

<i>Mulher</i>

Marcelo Hessel
09.06.2005
00h00
Atualizada em
11.11.2016
16h04
Atualizada em 11.11.2016 às 16h04

Mulher
Brasil, 1931
Drama - 70 min.

Direção e roteiro: Octávio Gabus Mendes

Elenco: Carmem Violeta,
Celson Montenegro, Ruth Gentil, Alda Rios, Luiz Soroa, Gina Cavalieri, Carlos Eugenio, Ernani Augusto, Augusta Guimarães, Humberto Mauro, Máximo Serrano, Manoel Ferreira Araújo, Milton Marinho, Olga Silva, Antonieta Olga

Em 1931 a indústria do cinema nos Estados Unidos ainda não lidava bem com a sonorização surgida em 1927, mas já se organizava em volta dos grandes estúdios em Hollywood. Enquanto isso, a coisa apenas engatinhava no Brasil, e o drama mudo Mulher é uma experiência daquele ano.

Na história, Carmem (Carmem Violeta) mora com a mãe e o marido beberrão numa casa apertada. Faz vários dias que ele não aparece por lá. Cansada de sofrer, ela declara o seu amor ao namorico secreto que brotou da insatisfação. Dá tudo errado: o amante a abandona e o marido volta para casa só para expulsá-la do lar. z

A mulher - o título incisivo e a narrativa até aqui sugerem que virá a maior lição de moral machista contra essa adúltera - se perde nas ruas. Doente, ela desmaia em público, e acaba levada à mansão de Flávio (Celso Montenegro) por um homem que a socorreu. O dono da casa primeiro desconfia. Acha que Carmem quer mesmo é dar um golpe do baú. Aos poucos, porém, ele descobre o quanto essa mulher apaixonada foi refém da vida. Flávio, ele também, viu-se largado pela amada, trocado por um sujeito mais abonado. Começa aí uma relação de cumplicidade - que sofrerá também alguns percalços.

Começava-se, na época, um esboço de indústria nacional, a Cinédia - que não deixou de ser só um projeto, como os esboços que se seguiram, Atlântida, Vera Cruz... Contudo, a Cinédia rendeu alguns frutos, e este filme do diretor Octávio Gabus Mendes (1906-1946), que agora ganha restauração da Cinemateca Brasileira, da Rob Filmes e da Petrobrás Distribuidora, é um deles.

O trabalho de recuperação - que se estendeu por um ano e meio em mais três outras obras, os chamados Clássicos da Cinédia - foi quase uma arqueologia. Apenas a trilha sonora em vitaphone, que ganhou uma nova sincronização com as imagens em preto-e-branco, era conservada nos arquivos da Cinemateca Brasileira. Todos os rolos do filme em si estavam em ruínas. O que se vê hoje na tela é o esforço máximo de salvamento. Trechos nunca recuperados ficam como lacunas escuras na telona, fotogramas vários ficaram bem desgastados mesmo, mas isso não chega a comprometer a experiência.

Além da lógica teatral

Diz-se "experiência", já duas vezes, porque naquele tempo não havia uma gramática definida de cinema como temos hoje. Os paradigmas vinham muito do teatro e da falta de praticidade dos pesados equipamentos de então: posicione a câmera num ponto e faça os atores se enquadrarem nela. O resto era experimentar, quebrar galhos e ver como ficava.

É assim que ocorre em boa parte de Mulher. Repare como as paisagens do campo servem de fundo para o casal que discute a relação - preferencialmente debaixo de uma árvore, para que a luz não afete o trambolhão Mitchell que o diretor de fotografia maneja com dificuldade.

Acontece que o diretor de fotografia de Octávio Mendes é um homem que viraria lenda no cinema brasileiro: Humberto Mauro (1897-1983). É graças a ele que as experiências aqui superam as limitações formais de 1931. Mauro subverte aquela lógica teatral e arrisca o que, dez anos depois, se tornaria lei: quem se mexe são os atores, a câmera é que deve se esforçar para alcançá-los.

Os enquadramentos bem pensados surgem aos poucos. Closes oblíquos em rostos, pegos de baixo para cima, perigam filiar o trabalho de Mauro ao contemporâneo Expressionismo alemão. Já as sequências no clube, à beira da piscina, quando a câmera passeia de roda em roda social, seguindo fielmente de planos abertos a meios planos e planos fechados, são emblemáticas de um talento para o olhar.

Ainda que haja avanços - e 1931 foi um ano rico deles, principalmente as regras quebradas pelo überclássico Limite, de Mário Peixoto - predomina um certo constrangimento com os limites do cinema. A enorme quantidade de intertítulos - cujo lirismo pode soar engraçado hoje - evidencia um filme que não vê a hora de trocar o mudo pelo falado.

Mesmo assim, a proposta ficcional de Gabus Mendes (pai de Cassiano, aliás) surpreende. Mulher, no fundo, elogia o amor dos justos numa época de arranjos. E escancarar a conduta de escaladores sociais e amores de conveniência deveria ser um tabu nos corretos anos 30.

Nota do Crítico
Bom