Filmes

Crítica

O Jogo da Imitação

Benedict Cumberbatch tem atuação brilhante como Alan Turing em filme competente, mas que não se arrisca

Érico Borgo
17.10.2014
16h35
Atualizada em
05.09.2019
23h29
Atualizada em 05.09.2019 às 23h29

Em plena Segunda Guerra Mundial, os aliados estavam distantes da vitória devido ao uso pelos alemães de uma intrincada máquina de criptografia chamada Enigma. Escondidos em uma instalação secreta nos campos ingleses, enquanto bombardeios frequentes devastavam Londres, uma equipe liderada pelo gênio matemático Alan Turing trabalhava contra o relógio para decifrar o inquebrável código nazista.

Benedict Cumberbatch dá em The Imitation Game, filme que celebra a vida de Turing em três momentos, a atuação mais rica de sua carreira. No papel do cientista, considerado o pai da computação, transforma seu imediatamente reconhecível vozeirão em algo distinto, com um discurso reticente, quase gaguejante, mais delicado. Também internaliza as aflições do homem, obcecado por seu trabalho, socialmente deficiente e dono de um segredo que acabou lhe custando a vida: a homossexualidade, proibida por lei na Inglaterra da época. Seu timing cômico também aflora aqui, criando um humor inteligente e sutil, repleto de carisma, por mais estranho e desajustado que seja seu personagem.

O filme do norueguês Morten Tyldum, dirigido com eficiência de linha de produção nórdica, não poupa esforços na reconstrução de época, chegando a usar máquinas originais da Segunda Guerra e filmar nos locais em que alguns fatos aconteceram para garantir a autenticidade. Dividida entre a adolescência de Turing, a fase do conflito e os dias de sua condenação, a trama passeia entre esses três períodos para evidenciar a ideia de que foi sua sexualidade (e por consequência os recursos que precisou desenvolver para escondê-la) um dos elementos fundamentais na transformação de Turing em um gênio da criptografia - e que em última instância abreviou a Segunda Guerra em anos, salvando vidas e iniciando as revoluções tecnológicas que desfrutamos hoje.

O filme, porém, está repleto de clichês, como o do momento da cooperação entre a equipe ou frases de efeito criadas para vender ingresso em trailer e buscar algumas lágrimas da plateia. Os demais personagens, ainda que interpretados por grandes atores ingleses, também não miram nada além de estereótipos arquetípicos (o militar desconfiado, o espião charmoso, o cientista bacana...) mas Mark Strong, Charles Dance, Alan Leech e Rory Kinnear ao menos os interpretam com honestidade. Um pouco mais o que fazer tem Kiera Knightley, a única mulher no grupo, a quem cabem arroubos protofeministas.

É tudo muito competente, mas pouco arriscado. Há ótimos momentos, como o da decisão moral pelo uso do computador, mas para todas elas há sequências familiares, feitas em nome da abrangência de público.

A história da invenção de Turing já foi contada várias vezes no cinema, mas nunca com esse interesse pela vida de seu criador. Investir mais na sua sexualidade, no pós-guerra e suas aflições (que envolveram castração química por injeções de estrogênio) certamente daria ainda mais reconhecimento a esse homem, gay, que ajudou a definir a segunda metade do século 20. Em uma época em que homossexuais ainda sofrem preconceito, são agredidos e muitas vezes ainda preferem esconder quem realmente são, evidenciar aos extremistas religiosos, valentões e homofóbicos online de plantão que seus laptops, smartphones e sua própria liberdade de expressão em destilar absurdos existem, em parte, graças a esse homem seria mais corajoso.

 

Nota do Crítico
Ótimo