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Jogos Mortais | Crítica

Jogos mortais

Marcelo Hessel
03.02.2005
00h00
Atualizada em
09.08.2017
18h22
Atualizada em 09.08.2017 às 18h22

Na política, os tempos de insegurança são os mais propícios para o aparecimento de pretensos salvadores da pátria. Desesperada, a massa tende a acreditar no discurso mais populista. Vale o mesmo para o cinema, ainda mais nestes dias de crise em Hollywood. Evite cair, por exemplo, em propagandas que pronunciam milagres, do tipo "O melhor filme de serial killer desde Seven!!"

É assim que a distribuidora no Brasil promove Jogos mortais (Saw, 2004), do estreante diretor e roteirista James Wan. O filme tem uma premissa interessante, de fato. O assassino em questão não é, essencialmente, um homicida. Ele aprisiona pessoas em situações limítrofes e os instiga a mutilar e matar em troca da fuga. Muitos se suicidam. O que move o torturador não é um mero trauma de infância ou uma psicose assexuada: ele simplesmente quer mostrar para as suas vítimas, escolhidas entre hipócritas, viciados e indolentes, que eles deveriam aproveitar melhor a vida que lhes é dada.

Na primeira cena, somos apresentados a Lawrence (Cary Elwes) e Adam (Leigh Whannell, também co-roteirista), dois desconhecidos que acordam num banheiro sem saber como chegaram lá. São reféns do "assassino". Estão acorrentados. Acham dois envelopes, cada um endereçado a um deles. Há um revolver e um gravador nas mãos de um terceiro homem, morto com uma bala na cabeça, no meio do espaço entre Lawrence e Adam.

Se parece com aqueles jogos de computador em primeira pessoa cheios de chaves escondidas e passagens secretas, não é mera coincidência. O sucesso comercial do filme nos EUA se deve muito ao seu caráter lúdico, ao quebra-cabeças que todos gostamos de tentar resolver. Promissor, não? O problema é que essa trama vendida como thriller intimista se revela na prática um trash cômico altamente petulante.

Scooby-Doo

Há bons componentes ali. Lawrence só será libertado se matar Adam. Isso daria material para um ótimo suspense realmente psicológico e, até, um ensaio moral que vai além da superfície do gênero. Mas quando exigido a desenvolver essa trama, aprofundá-la, o diretor Wan se contenta com a "corrida contra o tempo", a "brincadeira de gato e rato" e todo clichê que você quiser adicionar.

E segue-se ladeira abaixo, acredite. Surge um Danny Glover como policial atormentado, caricato, que sequer consegue desarmar um enfermeiro - em duas oportunidades! Temos crianças e vultos no armário, inclusive. O discurso de justificativa do torturador é repetido à exaustão. Quando o Lawrence do péssimo ator Cary Elwes começa a gaguejar e surtar, o riso vem fácil, até. E os buracos no roteiro vão se acumulando ao ponto em que não faz mais sentido tentar tapá-los por conta própria.

Não é uma deficiência somente do script. Apesar de dirigir com desenvoltura sequências que exigem estômago, Wan se acomoda. Tive a paciência de contar: ele exibe a cena-chave da foto no estacionamento não uma, nem duas, mas três vezes, para que fique tudo bem mastigado na cabeça do público. Um diretor que não confia em simples insinuação visual, que subestima a inteligência de quem o assiste, não merece a menor consideração.

E um dia as pessoas vão perceber que reviravoltas, esse passe-de-mágica revolucionário que transforma finais triviais em desfechos "cabeça", tipo Scooby-Doo (com direito a vilão tirando a máscara), na verdade são a maior muleta de muito cretino metido a cineasta.

Nota do Crítico
Ruim