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Inconscientes | Crítica

<i>Inconscientes</i>

Érico Fuks
23.06.2005
00h00
Atualizada em
07.11.2016
21h03
Atualizada em 07.11.2016 às 21h03

Inconscientes
Inconscientes, 2004
Espanha/Alemanha/Itália/Portugal
Comédia -108 min

Direção: Joaquín Oristrell
Roteiro: Dominic Harari, Joaquín Oristrell e Teresa Pelegri

Elenco:
Leonor Watling, Luis Tosar, Alex Brendemühl, Mercedes Sampietro, Núria Prims, Ana Rayo, Juanjo Puigcorbé, Marieta Orozco

Logo no início de Inconscientes (2004) os créditos dos atores aparecem com as letras invertidas que, num sincronizado baile alfabético, vagarosamente se corrigem. Uma brincadeira alusiva aos distúrbios cognitivos de linguagem, vindos da livre associação de idéias. Significantes que se perdem do seu contexto original e geram novos significados. Na gramática psicanalítica, não há "certo" e "errado" dentro desse parâmetro de análise, pois os lapsos da comunicação falada e escrita é que trazem as mais relevantes informações recônditas na couraça racional do cérebro humano.

Se mantivesse todo tempo esse clima lúdico, em que as incertezas e dubiedades trazem mais ganhos do que perdas, Inconscientes, novo longa do desconhecido diretor espanhol Joaquín Oristrell, até que seria um bom filme. Essa teatralização inicial carrega um caprichado colorido cenográfico, deixando bem claro se tratar de um filme de época e ao mesmo tempo mostrando sua preocupação em seduzir o espectador. A delicadeza das imagens que se contrapõe ao complexo e rebuscado jogo de palavras é tão sutil quanto irônica. No campo das interpretações, tudo está às avessas.

Corta para a cena seguinte, uma luta de boxe, e aí o filme começa a degringolar. A mudança de sua proposta é instantânea. O predominante tom farsesco e piadístico da película passa, então, a ter a sutileza de um Mike Tyson e ser tão emblemático e profundo quanto a psicologização das respostas a cartas enviadas a revistas femininas adolescentes. Nada contra a puberdade das moçoilas, que fique bem claro.

Estamos em Barcelona, 1913. Alma (Leonor Watling, a bailarina em coma de Fale com Ela, que atuou também em Minha Mãe Gosta de Mulher e Minha Vida sem Mim) é uma mulher considerada avançada para os padrões de sua época. Seu marido, o psiquiatra Dr. León Pardo (Alex Brendemühl), é um seguidor fervoroso das recém-criadas teorias do Dr. Freud. A alta sociedade médica está em polvorosa, pois o gênio da Psicanálise fará uma visita à cidade e irá trazer suas idéias revolucionárias para uma palestra.

León tem um irmão também psiquiatra, mas o oposto de sua personalidade. Salvador (Luis Tosar) é tão conservador que acredita que os sentimentos não passam de distúrbio endocrinológico. Um dia, Alma encontra o esposo transtornado. Ele chora, diz coisas incoerentes e a abandona, grávida. Alma recorre a Salvador para reencontrá-lo. A única pista é um manuscrito sobre histeria e sexualidade feminina deixado por León, baseado em quatro pacientes: uma atriz com complexo de perseguição, uma psicótica que tenta matar o marido, uma mulher sexualmente indecisa e uma estranha que acaba de descobrir um terrível segredo sobre seu passado.

O que era pra ser uma inteligente comédia de erros torna-se um infame pega-pega. As teorias freudianas servem apenas de pretexto para o truncado jogo de gato-e-rato. O filme é pontuado por frases tiradas dos compêndios literários que indicam mudanças de passagem. Engraçadinho, até. Mas tudo muito nivelado por baixo, tornando-se difícil abstrair um conteúdo mais rico do que meras considerações edipianas baseadas em tratados folhetinescos sobre sexo. Sobram até tiradas constrangedoras, como uma abordagem nada subliminar ao tema do tamanho do órgão viril masculino.

Se não houvesse uma contínua ansiedade em agradar o espectador atirando nas mais diversas e desconexas vertentes, Inconscientes poderia ser um filme mais honesto. Peca ao se mostrar singelo demais aos tabus. E brutamontes demais pra fazer rir.

Nota do Crítico
Regular