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Hotel Ruanda | Crítica

<i>Hotel Ruanda</i>

Marcelo Forlani
18.08.2005
00h00
Atualizada em
21.09.2014
13h18
Atualizada em 21.09.2014 às 13h18

Hotel Ruanda
Hotel Rwanda - 2004
EUA/Itália/África do Sul
Drama, 121 min

Direção: Terry George
Roteiro:
Keir Pearson e Terry George

Elenco: Don Cheadle, Desmond Dube, Hakeem Kae-Kazim, Tony Kgoroge, Neil McCarthy, Nick Nolte, Fana Mokoena, Sophie Okonedo, Lebo Mashile, Antonio David Lyons, Leleti Khumalo, Kgomotso Seitshohlo, Lerato Mokgotho, Mosa Kaiser, Mathabo Pieterson, Ofentse Modiselle, David OHara, Joaquin Phoenix, Lennox Mathabathe, Mothusi Magano, Jean Reno

Dizem que em 1945, ao fim da 2ª Guerra Mundial, muita gente não sabia da existência dos campos de concentração nazistas e das atrocidades por lá cometidas. É um fato aceitável, pois estamos falando de algo que ocorreu há quase 50 anos. Era uma época em que não existiam CNN, Al Jazeera, transmissões ao vivo via satélite, muito menos Internet. Mas o que dizer do total descaso quanto às 800 mil pessoas que foram mortas em Ruanda em 1994? E ao que acontece hoje em dia no Congo, no Sudão e em outros países pobres? Esta é a questão que o diretor Terry George (leia entrevista aqui) encontrou na história verídica de Paul Rusesabagina.

Paul (interpretado por Don Cheadle) conseguiu a muito custo chegar ao posto de gerente do Hotel Des Milles Collines, resquício da "colonização" belga que durou de 1918 a 1962. Outra conseqüência deste período de dominação européia foi o acirramento da divisão do povo ruandês em dois grupos: os Tutsis e os Hutus. Quando chegaram, os belgas se uniram à minoria tutsi, favorecendo-os e privilegiando-os com uma educação ocidental, enquanto a maioria hutu era marginalizada. Em 1926, chegaram a oficializar a divisão étnica, introduzindo carteiras de identidade que explicitavam a ascendência de cada indivíduo. Nos anos 50, quando iniciou-se a mudança para um governo democrático, os belgas deixaram os tradicionalistas tutsis de lado e chegaram até mesmo a apoiar uma revolução hutu, que destituiu os antigos monarcas do poder. Começou, então, uma era de caça aos tutsis, que perderam privilégios como o de freqüentar as universidades e que levou muitos a se exilarem no exterior. Alguns deles se uniram para formar a Frente Patriótica Ruandesa (FPR), que iniciou guerrilha contra o governo hutu. A disputa entre as duas facções gerou diversas revoltas, assassinatos, emboscadas e massacres, até que em 6 de abril de 1994, após assinatura de um acordo de paz entre governo e FPR, o presidente Habyarimana foi morto por membros do seu próprio partido, que não tardaram em culpar os tutsis e iniciar o maior massacre da história contemporânea.

Paul, um hutu, era casado com a tutsi Tatiana (Sophie Okonedo) e usou todas as suas influências com pessoas ligadas ao governo, guerrilha e militares para salvar a vida de sua família. Como manda-chuva do luxuoso hotel, "um oásis no deserto", ele faz mais do que isso. Salvou 1268 pessoas, refugiados, órfãos, feridos que conseguiram chegar ao hotel e por algum detalhe divino escaparam do triste destino de virarem meras estatísticas na lista de assassinados. Para proteger o local e os "hóspedes", Paul subornou com dinheiro, bebidas, charutos e o que mais tinha à mão e, quando o material acabou, apelou à vaidade alheia e à influência do dono belga (Jean Reno) da rede hoteleira, que tinha ligações próximas com primeiros-ministros e generais.

Mas se bastava uma ligação para que tudo isso se resolvesse, então por que as coisas chegaram a este ponto? Esta é a grande questão. As potências mundiais não se importavam e ainda não se importam com o que acontece na África, o continente mais miserável do mundo e que, por isso mesmo, tem pouca ou nenhuma importância política. Não há, por exemplo, petróleo como no Kuait e no Iraque. A posição geográfica não atrapalha o banho de mar das potências européias, que na verdade ainda conseguiam lucrar com a venda de armas. Então, eles que se matem!

O buraco é mais embaixo

Por tudo o que está escrito acima e pela forma milagrosa como Paul salvou a si mesmo e a tantos outros na capital Kigali, era questão de tempo até que a história virasse filme. Por sorte, caiu nas mãos de Terry George, competente roteirista do também politizado (e premiado) Em nome do pai (1993).

O cineasta irlandês não tem problemas em simplificar situações e personagens reais para transformar seu filme em algo mais comercial. O objetivo de Terry George é que o máximo de pessoas possível veja o filme e o que aconteceu em Ruanda. Assim, ele prefere poupar o espectador do banho de sangue, mostrando no seu lugar a não menos impressionante lama de cadáveres. Para completar, a fotografia granulada, que deixa a fita com ares de documentário, e as ótimas atuações tiram Hotel Ruanda (Hotel Rwanda, 2005) do caminho hollywoodiano do drama barato. Há, claro, os maniqueísmos e estereótipos, como o general corrupto e vaidoso (Fana Mokoena), o jornalista (Joaquim Phoenix) que quer mas não consegue mostrar a verdade ao mundo e o comandante das forças da ONU (Nick Nolte) que sofre por sequer poder atirar em quem o ataca, mas a mensagem de que "o buraco é mais embaixo" passa por cima de tudo isso.

Comparando mais uma vez o que fizeram os nazistas ao que aconteceu em Ruanda, pode-se dizer que Paul Rusesabagina foi uma espécie de Oskar Schindler. Como repetia-se incessantemente na rádio hutu, as vidas das pessoas que ele salvou não valiam nada para os rebeldes. "Matem as baratas tutsis e os hutus traidores", difundia a propaganda dos matadores, algo muito parecido com a denominação de "vermes" usada pelos seguidores de Hitler para se referir aos judeus. A diferença é que a maioria das pessoas que Paul salvou continuam miseráveis até hoje e sua forma de agradecimento dificilmente poderá se equiparar ao anel de ouro oferecido pelos judeus ao alemão.

Hotel Ruanda
Hotel Rwanda
Hotel Ruanda
Hotel Rwanda

Ano: 1995

País: Itália, Inglaterra

Classificação: 14 anos

Duração: 120 min

Direção: Terry George

Roteiro: Keir Pearson, Terry George

Elenco: Don Cheadle, Nick Nolte, Sophie Okonedo, Joaquin Phoenix, Jean Reno, Ofentse Modiselle, Mathabo Pieterson, Neil McCarthy, Desmond Dube, Hakeem Kae-Kazim, Tony Kgoroge, Fana Mokoena, Lebo Mashile, Antonio David Lyons, Leleti Khumalo

Nota do Crítico
Ótimo

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