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Crítica

Gangues de Nova York | Crítica

Não deixa de ser um filme brutal, mas troca a violência gratuita pela disputa engajada ideologicamente

Marcelo Hessel
06.02.2003
01h00
Atualizada em
21.09.2014
13h13
Atualizada em 21.09.2014 às 13h13

O nova-iorquino Martin Scorsese nasceu em 1942, no bairro do Queens, região conhecida na época como Little Italy. Seu pai, um funcionário público, descendente de imigrantes italianos, precisava se submeter à Máfia local para sobreviver. Nesse ambiente, Scorsese tinha limitadas alternativas de vida. Recusou o gangsterismo e assistiu à queda de muitos dos seus amigos. Aos quatorze anos, tornou-se seminarista, mas logo entendeu que tinha vocação, mesmo, para o cinema.

Ao lado de jovens como Steven Spielberg e Francis Ford Coppola, a geração de gênios promissores que revolucionou o cinema comercial nos anos 70, ingressou na Universidade de Nova York. Logicamente, os seus temas passavam pela realidade que havia experimentado na adolescência, num estilo original que mesclava cortes rápidos, personagens desvirtuadas, violência estilizada e trilha sonora impactante.

Assim, retratou à sua maneira os tipos mais pitorescos da metrópole. Imigrantes trambiqueiros em Caminhos Perigosos (Mean Streets, 1973). Os próprios pais, no documentário Italianamerican (1974). Motoristas e prostitutas em Taxi Driver (1976). Boxeadores em Touro Indomável (Raging Bull, 1980). Pintores e artistas no episódio inicial do filme Contos de Nova York (New York stories, 1989). O auge e o declínio da Máfia em Os Bons Companheiros (Goodfellas, 1990). E até paramédicos e enfermeiros, em Vivendo no Limite (Bringing Out the Dead, 1999).

O projeto

Apesar do currículo recheado, Scorsese levou trinta anos para realizar o seu mais sonhado projeto. Em 1970, início de carreira, o diretor leu o livro As Gangues de Nova York - Uma história informal do submundo de Nova York, que o jornalista Herber Asbury (1890-1973) publicou em 1928. E se apaixonou pelo relato. Tentou filmá-lo em 1978, com Robert DeNiro no papel principal e com a participação do The Clash, mas os custos forçaram um adiamento. No fim das contas, Scorsese levou 25 anos para completar o roteiro, tempo em que buscou material e depoimentos históricos. E, finalmente, agora realiza a sua versão da história, Gangues de Nova York (Gangs of New York, 2002), a reconstituição de um tempo em que leis eram atropeladas, vidas valiam pouco e a Máfia italiana sequer tinha atravessado o Atlântico.

Dificuldades na ambiciosa realização não faltaram. Sem qualquer vestígio, no centro cosmopolita, da paisagem desoladora que NY representava no século XIX, Scorsese recorreu ao lendário estúdio da Cinecittà italiana, em Roma, para montar a sua própria cidade-cenário. Fechou uma parceria com a Miramax para bancar o investimento, mas assistiu à interferência de Harvey Weinstein, produtor-executivo da companhia. Irredutível em seus 1,60m de altura, Scorsese defendia a duração de quatro horas de película. A Miramax queria um corte pela metade. Foram meses de bate-boca, reedições e lançamentos adiados, desde o início da produção em meados de 2000. O filme chega às telas brasileiras, enfim, com 166 minutos de narrativa fluente e momentos marcantes.

O resultado

A história concentra-se entre 1830 e 1863, tempo de duras batalhas territoriais na Baixa Manhattan. Começa com a derrota do Pastor Vallon (Liam Neeson) e sua gangue dos Coelhos Mortos - imigrantes irlandeses, católicos, que fugiam da fome na Europa - diante de Bill Carniceiro Cutting (Daniel Day-Lewis) e sua gangue protestante dos Americanos Nativistas. Com a morte de Vallon, seu filho é enviado para um internato. Dezesseis anos depois, Amsterdam (Leonardo DiCaprio) retorna para vingar a morte do pai, mas encontra um terreno em que Cutting domina os políticos, os irlandeses e, ainda, controla a vida da larápia sedutora Jenny (Cameron Diaz).

Pode parecer uma premissa simplória, previsível e romântica. Todavia, Scorsese tem talento suficiente para tecer o panorama político da época e conseguir escapar de certas armadilhas. Evita exemplarmente o sentimentalismo que o triângulo amoroso sugeriria, colocando-o em segundo plano. E, principalmente, foge do maniqueísmo e balanceia as personagens de Day-Lewis e DiCaprio com ambivalências, dilemas morais. O filme cresce em complexidade a cada instante. Em determinado momento, fica ofuscada a definição dos bons e maus, num cenário em que a carnificina iguala a todos.

Gangues de Nova York não deixa de ser um filme brutal, mas não exibe a violência gratuita da atualidade, e sim uma disputa engajada ideologicamente. E com resultados plásticos belíssimos, uma reconstituição primorosa, entremeada com imagens verídicas e recortes de jornais da época. Destaque para a seqüência inicial, cadenciada pela música irlandesa; para a atuação memorável de Day-Lewis; para o episódio no teatro, crucial para a história; para a passagem tensa no bordel chinês; e, finalmente, para o final grandioso.

Mas nem tudo são floreios. Em meio a uma história sangrenta e um final desolador, o filme deixa poucas margens a lições de moral ou de ética. Se o episódio da disputa territorial ocorresse atualmente, em outro país, provavelmente o desfecho ficaria na mão dos intervencionistas norte-americanos e da ONU. Afinal - reza o ideal republicano de liberdade - uma pendenga religiosa que gera violência local precisa ser remediada de maneira global, a exemplo do que ocorre na Palestina. Talvez esse seja o aviso de Gangues de Nova York, e um ensinamento aos paladinos de Washington: com bandidos e corruptos, pessoas sem escrúpulos que dão e tiram vidas por um pedaço de terra, também se faz uma nação.

Nota do Crítico
Excelente!