Foto de  If Beale Street Could Talk

Créditos da imagem: If Beale Street Could Talk/Plan B Entertainment/Divulgação

Filmes

Crítica

Se a Rua Beale Falasse

Barry Jenkins faz adaptação poética do romance de James Baldwin

Natália Bridi
17.09.2018
12h38
Atualizada em
07.02.2019
09h14
Atualizada em 07.02.2019 às 09h14

A tensão racial está presente em quase todas as linhas da história americana. Uma segregação emocional se mantém em muitas partes do país até hoje, com notícias sobre violência policial transformadas em rotina. A adaptação de Barry Jenkins para If Beale Street Could Talk é a constatação lírica desse fato. Publicado em 1974, o romance de James Baldwin continua atual.

Tish (Kiki Layne) está grávida. Fonny (Stephan James) está na prisão, acusado de um crime que não cometeu. A descrição sugere um amor impossível, mas essa é história de um romance interrompido pela realidade. Jenkins apresenta esse inimigo constante na passagem da primeira para a segunda cena. Tish e Fonny andam e fazem juras de amor pelas margens de um rio. A câmera é lenta, as cores vivas. Corta. Tish e Fonny conversam na prisão, ela de um lado do vidro, interfone em mãos, ele de outro. As cores são frias, a conversa prática, mas ainda carinhosa. “Vamos ter um bebê”, ela conta.

Os eventos são conduzidos pela narração de Tish, intercalando presente e passado para estabelecer a origem desse amor e também da sua tragédia. Pelo caminho do casal passam diversos personagens, interlocutores para a elaboração de uma visão completa, longe de extremos e absolutos. Jenkins quer entender o que aconteceu, não apontar culpados. Seja o simpático proprietário do prédio que o casal visitou para alugar um apartamento ou o amigo de longa data que acaba de sair da prisão e se emociona com um prato de comida caseira, é pela troca de experiências, em pequenas atitudes, que If Beale Street Could Talk ergue seu panorama sobre a sociedade americana.

Idealizado como um mural, o filme usa fotos históricas para contextualizar o romance de Tish e Fonny. As imagens em preto e branco contrastam com as cores saturadas da direção de fotografia de James Laxton, que por sua vez ressalta a paleta do figurino de Caroline Eselin. Tons de amarelo, azul, vermelho e verde tornam a imagem vívida. A composição visual potencializa o impacto de tudo que é dito, mas a câmera não esquece de olhar atentamente para os personagens. Jenkins observa emoções para obter o máximo de cada atuação, por menor que seja o papel.

If Beale Street Could Talk torna bela uma história triste. É uma escolha estética e também narrativa. A trama do romance de Baldwin continua atual, assim como resiliência dos seus personagens. Jenkins opta por celebrar essa qualidade. A crueza da realidade não supera a beleza de amar, ser amado e seguir em frente.

Nota do Crítico
Excelente!