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Extermínio | Crítica

Não é mais um filme de zumbis americanos

Marcelo Forlani
24.07.2003
00h00
Atualizada em
21.09.2014
13h14
Atualizada em 21.09.2014 às 13h14

No dia das bruxas do ano passado, só se falava uma coisa em Londres... doces ou travessuras? Errou feio! Os ingleses não saem às ruas fantasiados como crianças. O assunto era 28 Days Later, que no Brasil foi batizado de Extermínio. O título original explica melhor o contexto, mas não deve ter sido usado para evitar confusões com um daqueles filmes bobos (28 dias, de Betty Tomas - 2000) estrelado por Sandra Bullock.

Num dia qualquer, em um futuro não muito distante, eco-ativistas invadem um laboratório na Inglaterra para libertar animais que estão sendo usados como cobaias. Numa cena que remete à lavagem cerebral mostrada em A Laranja Mecânica (A Clockwork Orange, de Stanley Kubrick - 1971), vemos macacos sendo obrigados a assistir a cenas de violência. Para azar dos chimpanzés, dos próprios invasores e da humanidade, os manifestantes chegam tarde demais. Os animais já estavam contaminados por um vírus psicológico, a RAIVA! Ao abrir a jaula do primeiro símio, uma das ativistas é atacada e contrai o vírus. Em poucos segundos ela se torna um zumbi raivoso, cujo instinto é atacar sem hesitação, infectando suas vítimas, que por sua vez vão atacar mais pessoas. Quem sobrevive aos ataques é transformado neste ser movido a ódio. Desta forma, a Inglaterra é devastada em 4 semanas.

Não é mais um filme de zumbis americanos

Ao contrário dos vagarosos mortos-vivos que se vê nos filmes de terror normais, o diretor Danny Boyle e o roteirista Alex Garland (leia a entrevista com eles) resolveram que seus zumbis seriam mais velozes que os humanos. A explicação é mais lógica do que parece: quando você está fora de seu estado normal, seu corpo vai além dos limites que a mente estabelece para sua própria segurança. Essa é uma das boas novidades que eles trouxeram para a renovação do gênero. As mudanças, na verdade, são apenas prova de que eles viram muitos filmes do diretor George Romero, o maior expoente dos filmes de zumbi...

Usando câmeras digitais (pequenas e de fácil manuseio), Boyle pôde filmar in loco a impressionante seqüência inicial, que mostra Londres completamente evacuada. Enquanto os policiais paravam o trânsito por alguns segundos, eles filmavam. Para quem nunca passou pela capital inglesa, tente imaginar o que seria ver a Avenida Paulista completamente às moscas às 17h, ou então Copacabana vazia num dia de verão... Parece impossível, né? Digamos que a cena em que Tom Cruise anda sozinho por Times Square, em Vanilla Sky (idem de Cameron Crowe - 2001), parece brincadeira de criança.

Independente do dinheiro

Apesar do orçamento e jeitão de filme independente (apenas US$ 8 milhões, contra US$ 170 milhões de Exterminador do Futuro 3, por exemplo) Extermínio teve na Inglaterra uma divulgação digna dos grandes filmes hollywoodianos. Além de comerciais na TV, foram feitos por Glynn Dillon (irmão do Steve Dillon, da HQ Preacher) uma série de páginas no formato dos quadrinhos, que mostrava o que havia acontecido em Londres nos 28 dias depois da liberação do vírus até o momento que Jim (Cilian Murphy) acordava do coma e saía à procura de qualquer pessoa.

Na sua busca, Jim encontra Selena (Naomi Harris), Frank (Brendam Gleeson) e sua filha Hannah (Megan Burns), que explicam o que aconteceu e o ensinam que se alguém for infectado, tem de ser morto em poucos segundos. Não importa se é sua mãe, irmão ou melhor amigo. Buscando uma forma de sobreviver neste mundo pós-apocalíptico, eles captam um sinal de rádio vindo de Manchester, de um campo militar seguro. Juntos eles rumam para o norte da Inglaterra, para este oásis livre dos zumbis.

Nos Estados Unidos, o filme também está sendo tratado como um produto diferenciado. Além de disponibilizar na internet os primeiros 6 minutos do filme o que já é um ótimo chamariz, a Fox americana decidiu colocar nos cinemas americanos o final alternativo que os ingleses só viram nos extras do DVD. Dois finais pelo preço de um!

Astros brilhantes

A escolha do elenco foi um desafio à parte para Boyle. Assim como o restante do elenco, Cillian teve aqui a sua primeira grande chance na frente das câmeras. O diretor decidiu usar atores praticamente desconhecidos para participar de seu quinto filme (sétimo se computar os dois filmes feitos pela BBC na época da ressaca pós-fracasso). A idéia era não influenciar a audiência com nomes famosos, cujos papéis anteriores sempre vêm à mente, por bem ou por mal.

Para Boyle, a história é a estrela. E, diga-se de passagem, uma estrela brilhante, que acentua as sombras da mente humana, seja ela infectada ou não. E quem for ao cinema vai saber do que estou falando, pois na segunda parte do filme, quando há uma mudança de clima na história, os espectadores são levados a pensar que talvez estejamos a menos de 28 dias daquele terrível futuro.

Leia também: Entrevista com Danny Boyle e Alex Garland

Nota do Crítico
Ótimo