Espelho Dágua - Uma Viagem no Rio São Francisco | Crítica
<i>Espelho dágua - uma viagem no rio São Francisco</i>
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A Retomada já fez dez anos, mas o cinema brasileiro ainda procura uma identidade. Caça uma fórmula representativa, necessária para consolidá-lo num mercado que ainda vive de sucessos isolados de bilheteria.
Não por acaso, o filme de estrada com ares documentais tornou-se um gênero caro aos realizadores nacionais. Obras como Central do Brasil (de Walter Salles, 1998), Deus é brasileiro (de Cacá Diegues, 2002) e O Caminho das nuvens (de Vicente Amorim, 2003) resgatam os anseios de Bye Bye Brasil (de Diegues, 1979) e buscam a unidade num país vasto geográfica e culturalmente.
Isso também vale para Espelho dágua - uma viagem no rio São Francisco (2004), de Marcus Vinícius Cezar. Atravessar qualquer trecho dos 3.160 quilômetros do leito que percorre cinco Estados equivale a uma verdadeira epopéia. E é nesse road movie aquático, com evidente conotação ecológica, que o diretor investiga raízes populares, folclores genuínos. Como diz um dos personagens do filme, as fotografias turísticas não revelam o rio que morre a cada dia debaixo do espelho dágua. E se o Nordeste responde pela cara do Brasil, a margem fértil do velho Chico é a pátria que precisa ser preservada.
Uma mistura de suspense e romance justifica a empreitada. Perto de concluir um livro ilustrado, o fotógrafo Henrique (Fábio Assunção) parte de Penedo - cidade alagoana próxima à foz do rio - São Francisco adentro, em busca dos últimos cliques do seu projeto. Paralelamente, a sua namorada Celeste (Carla Regina) consegue uma semana de férias no Rio de Janeiro e viaja, em segredo, para reencontrar o amado em Penedo. Mas a surpresa termina frustrada pelo desencontro. Celeste decide, então, seguir os rastros de Henrique pelo rio - sem suspeitar que alguns acidente tornarão a travessia mais aguda.
Não desconfie das aparências. Fábio Assunção convence longe dos papéis rasos da TV e o mistério dura tenso até os momentos finais. Já Carla Regina não tem tanta versatilidade - mas nada que a sua beleza não compense. O fato é que o reencontro do casal, apesar de fio condutor, não é o atrativo principal do filme.
Ritualístico
Oriundo do documentário, Marcus Vinícius Cezar mostra nesta sua estréia na ficção que ainda sabe privilegiar o retrato puro e simples da realidade. No seu tour pela cultura agreste, exibe procissões, bailes, feiras de rua, teatros de bonecos e funerais. Busca também, entre coadjuvantes e figurantes, representantes legítimos da região. Daí surge uma louvável revelação: o piauiense Francisco Carvalho, ator que interpreta o remeiro Abel, condutor de toda a história.
Os melhores momentos ficcionais de Espelho dágua são de Abel. Em tom de fábula, ele lembra que ganhou uma canoa quando era criança, deu-lhe um nome, Sidó, conversa com ela todo dia - e só nela confiou durante uma vida toda de idas e vindas pelo rio. E ele conta também como está difícil decidir pela aposentadoria da velha e viajada Sidó. A tocante narrativa envolve o espectador pelo seu caráter ritualístico: nada nos atos e reações de Abel parece gratuito, tudo soa decisivo.
Repare que há duas histórias aqui - o reencontro do casal e o fim da jornada de Abel - obrigadas a coexistir. E a cada momento Espelho dágua sugere novos caminhos, lança novas sugestões, como as epifanias do menino Tonho, a morte do engajado Candelário, etc. Pela sua dificuldade em resolver tantas pretensões que criou para si, o diretor enfraquece aquilo que poderia ser somente um modesto grande conto.
Ou, vendo por outro lado, Marcus Vinícius Cezar adiciona às habituais dúvidas existenciais da nossa cultura mais um monte de questões abertas que cabe unicamente ao espectador decifrar. Este decidirá qual das duas é a melhor interpretação.
Espelho Dágua - Uma Viagem no Rio São Francisco
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