Filmes

Crítica

Encontros e Desencontros | Crítica

<i>Encontros e desencontros</i>

Érico Borgo
22.01.2004
00h00
Atualizada em
21.09.2014
13h15
Atualizada em 21.09.2014 às 13h15

Encontros e desencontros
Lost in translation

EUA, 2003 - 105 min.
Comédia/romance

Direção: Sofia Coppola
Roteiro: Sofia Coppola

Elenco: Scarlett Johansson, Bill Murray, Catherine Lambert, Giovanni Ribisi, Yutaka Tadokoro, Anna Faris, Fumihiro Hayashi, Hiroko Kawasaki

Vez por outra, surge uma pedra preciosa no cinema, lapidada a partir de vidro. Um filme que prova que a sétima arte não precisa ser milionária para encantar a audiência. Sem efeitos especiais, sem ousadias estilísticas de diretor, sem maquiagens ou estrelismos. Apenas um cineasta preocupado em contar uma história e atores empenhados em torná-la real.

Encontros e desencontros (Lost in translation, 2003) é assim... simples. Sofia Coppola, que já havia honrado o legado da família em Virgens suicidas, conduz de maneira brilhante e irretocável os 105 minutos da fita. Sem excessos, apenas observando e deixando Bill Murray (Os excêntricos Tenembauns) e Scarlett Johansson (Mundo fantasma) interpretarem Bob Harris e Charlotte, os protagonistas da história. Vale destacar também a trilha sonora, uma das melhores desde Pulp Fiction.

O filme foi totalmente rodado em Tóquio, uma alucinação em néon cravada na Terra do Sol Nascente. Uma nação de contrastes, onde tradição, ocidentalização e exageros convivem lado a lado. Bob Harris está lá para gravar uma propaganda de uísque, aproveitando seu restinho de fama como ator, badaladíssimo nos anos 70. Charlotte acompanha o marido (Giovanni Ribisi), um famoso fotógrafo de celebridades que está trabalhando com a imagem de uma banda de rock local.

Ambos estão milhares de quilômetros longe de casa, tristes, e nenhum dos dois consegue dormir com o fuso horário de 24 horas. Mais do que isso, não encontram suas próprias identidades. O problema, claro, não é o Japão. A história poderia ter sido rodada em Berlim, Madagascar ou São Paulo. Se, num primeiro momento, o filme parece o retrato fiel de uma cultura local, logo percebemos que Sofia Coppola faz a crônica da impessoalidade de um planeta globalizado.

Inicialmente, a insônia é o pretexto para as conversas de Bob e Charlotte, já que eles freqüentemente encontram-se por acaso no bar do hotel em que estão hospedados. Em pouco tempo, porém, os novos amigos já estão circulando juntos pela exótica cidade. O começo pode até parecer algo saído de uma comédia romântica, mas Encontros e desencontros está longe de poder ser classificado assim. É uma história de amor, sem romance.

Coppola é sutil. Revela aos poucos os sentimentos de seus personagens, jamais desmerecendo a inteligência do espectador. Bill Murray, contido e profundo, tem a atuação de sua vida. Memorável. Scarlett Johansson também não fica atrás. Ela não tem o padrão de beleza das jovens beldades de Hollywood, mas seu talento deve colocá-la em papéis que, no passado, ficariam com atrizes como Jodie Foster ou Merryl Streep.

O filme também aproveita para criticar a Meca do Cinema, já que, no hotel, está acontecendo uma coletiva de imprensa para Midnight velocity, uma típica produção de ação (fictícia, claro) estrelada por Keanu Reeves. A protagonista do filme, interpretada por Anna Farris (Todo mundo em pânico), é uma das hóspedes do hotel e parece uma caricatura de todas as estrelinhas teen do mundo do entretenimento. Enojada com o evento, a sensível Charlotte atravessa o corredor e entra numa sala onde senhoras japonesas estão praticando a milenar arte do Ikebana, com harmoniosos arranjos florais.

A seqüência é curta, mas prova que Sofia Coppola conhece muito bem o caminho que deve continuar trilhando.

Nota do Crítico
Excelente!