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Em trânsito | Crítica

<i>Em trânsito</i> - Mostra de SP

Érico Borgo
25.10.2005
01h00
Atualizada em
21.09.2014
13h19
Atualizada em 21.09.2014 às 13h19

Em trânsito
Brasil, 2005
Documentário - 96 min

Direção: Henri Gervaiseau

O documentário Em trânsito, de Henri Gervaiseau (coordenador do Núcleo de Audiovisual do Centro de Estudos da Metrópole), retrata uma parte ao mesmo tempo importante e perdida das vidas de quinze paulistanos: seu trajeto de casa ao trabalho.

A seleção de personagens mistura gente que leva horas para chegar aos seus empregos e pessoas que efetivamente bombeiam o sangue humano pelas veias viárias da capital. Todas, do motorista de ônibus John Lennon (envergonhado por estar operando um veículo velho no dia das filmagens) à empregada doméstica Virgínia Maria de Jesus (que apesar dos 40 anos de idade aparentava 60 por caminhar 22 quilômetros diários para trabalhar), têm histórias interessantes de sua relação com o transporte no quinto maior conglomerado urbano do planeta. Gervaiseau, porém, quebra uma regra fundamental do documentário isento ao interagir demais com o tema em questão.

Uma cena é emblemática desse problema: ao perguntar a um motorista de ônibus sua religião, diz "você é católico?" e antes que o homem possa responder o "sim" que já se formava em seus lábios, o diretor engata um desnecessário "...ou indeciso como eu?". A mudança na resposta é visível. Como que para agradar o homem com uma câmera à sua frente o homem humilde declara-se "indeciso".

A interação é ainda mais dispensável por tratar-se de um longa não-panfletário. Afinal, Em trânsito não procura culpados pelo caos urbano, apenas humaniza os dados. A proposta do filme é procurar quinze dos 5 milhões de usuários da rede de ônibus, dos 200 mil motociclistas, do 1,7 milhão que anda nos metrôs, dos 5 milhões de motoristas... ao encontrá-los, descobre como fazem para enfrentar o árduo trajeto diário.

Um documentário interessante, sem dúvida, mas que poderia ser muito mais relevante. Afinal, qualquer pessoa que viva nos grandes centros brasileiros conhece muito bem o dilema apresentado no longa e tem tantas histórias pra contar quanto os personagens de Em trânsito. Se a produção buscasse as raízes do problema e formas de combatê-lo, certamente figuraria como um documentário indispensável na cinematografia contemporânea. Não é o caso.

Nota do Crítico
Regular