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Crítica

Em Busca da Terra do Nunca | Crítica

<i>Em busca da Terra do Nunca </i>

Marcelo Forlani
03.02.2005
00h00
Atualizada em
02.11.2016
03h06
Atualizada em 02.11.2016 às 03h06

Em busca da Terra do Nunca
Finding Neverland
EUA/Inglaterra, 2004
Drama - 106 min.

Direção: Marc Forster
Roteiro: Allan Knee (peça), David Magee

Elenco: Johnny Depp, Kate Winslet, Julie Christie, Radha Mitchell, Dustin Hoffman, Freddie Highmore, Joe Prospero, Nick Roud, Luke Spill, Ian Hart, Kelly Macdonald

Em 1999 surgiu na Internet um curta-metragem que causou grande furor nas comunidades nerds: George Lucas in love, de Joe Nussbaum. O vídeo, de quase 9 minutos, parodiava Shakespeare apaixonado (1998), porém, colocava o criador de Star Wars no lugar do bardo britânico. Às vésperas de entregar seu trabalho de conclusão de curso na faculdade de cinema, o jovem George Lucas passa por um bloqueio criativo, até que recebe da amiga Marion a dica de procurar a inspiração no que está ao seu redor. Marion usava cabelos enrolados nas laterais da cabeça, o professor orientador de Lucas "ao contrário falava", o maior arqui-rival do jovem cineasta tinha problemas de respiração e por aí vai. E assim, usando estas experiências e uma ótima surpresa no final, o estudante de cavanhaque e óculos criou aquele galáxia muito, muito distante que todos nós conhecemos.

Comparando muito a grosso modo, Em busca da terra do nunca (Finding Neverland, 2004) é uma versão estendida da paródia acima descrita. A principal diferença, além de trocar George Lucas por James Mathew Barrie (Johnny Depp), é que o escritor escocês realmente usou a experiência que teve junto com os meninos da família Llewelyn Davies para criar sua mais famosa obra: Peter Pan.

O roteiro escrito por David Magee é baseado na peça The man who was Peter Pan, de Allan Knee. Trata-se de uma série de eventos e conversas ficcionais que teriam existido entre Barrie e os Llewelyn Davies. O primeiro encontro entre eles acontece no Kensington Garden, em Londres. Barrie vai até o parque buscar inspiração para uma nova peça, já que sua última empreitada foi um fracasso retumbante. Embaixo do banco onde está sentado encontra-se o caçula Michael (Luke Spill), mantido "prisioneiro" pelo primogênito George (Nicholas Roud). Tudo não passa de uma brincadeira, na qual Barrie se junta como mais uma das crianças.

Órfãos por parte de pai, os meninos vêem no escritor um misto de figura paterna e amigo, já que Barrie se fantasia para brincar com eles e não se censura a qualquer tipo de atividade. O único que ainda tem uma certa barreira contra o novo companheiro é Peter (Freddie Highmore), visivelmente o que mais sente a falta do pai e por isso o que mais recebe atenção especial por parte de Barrie. As conversas entre os dois não mostram um adulto e uma criança, mas sim duas pessoas falando de igual para igual. Primeiro porque Barrie nunca deixou de ser uma criança e também porque a perda precoce fez com que Peter amadurecesse antes do tempo. O escritor sabia como o menino se sentia porque sofreu na sua infância uma dor parecida, quando seu irmão de apenas 13 anos morreu.

Hollywood, a terra do faz-de-conta

Como a duração de um longa-metragem comercial deve ser menor que os vários anos que Barrie e os meninos passaram juntos, vários fatos acima foram forjados para se encaixar na história. Na verdade, os meninos eram cinco e não quatro como no filme; no primeiro encontro, dois deles nem haviam nascido ainda e o mais novo tinha apenas um ano; quem acompanhava os garotos no parque naquele primeiro encontro não era a mãe Sylvia (interpretada por Kate Winslet), mas sim a babá da família; o pai dos meninos, Arthur Llewelyn Davies, conviveu com Barrie, pois faleceu apenas em 1907, três anos depois da estréia de Peter Pan no teatro; isso sem contar outras coisas que estragariam o fim do filme.

Porém, para quem vai ao cinema se divertir e se emocionar, nada disso interessa. Todas as atuações estão ótimas. Se Steven Spielberg foi incessantemente comparado a Peter Pan quando dirigiu Hook - A volta do Capitão Gancho (1991), Johnny Depp mostra que sabe de cor o caminho para a Terra do Nunca. Além de não aparentar seus 41 anos, sua companheira de filme Kate Winslet confirma sua fama de brincalhão. "Johnny consegue como poucos agir como uma criança no set. Era como se eu estivesse trabalhando com cinco crianças! Ele fazia os meninos e eu rirmos sem parar com suas brincadeiras, que é exatamente o que precisávamos para criar o espírito da história", disse a estrela de Titanic.

Mas não vá para o cinema com a esperança de ver na tela um bonito filme sobre pessoas que nunca envelhecem. Em busca da terra do nunca é um drama sobre a perda da inocência e a criação de um lugar secreto onde é possível se esconder da dureza do dia-a-dia. Misturando cenas reais com fantasias, o diretor Marc Foster (A última ceia) consegue fazer o mais marombado dos Pitboys sair da sala dizendo que entrou um cisco em seu olho.

Nota do Crítico
Bom

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