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Corações Livres | Crítica

<i>Corações livres</i>

Marcelo Hessel
01.07.2004, às 00H00
ATUALIZADA EM 19.11.2016, ÀS 12H03
ATUALIZADA EM 19.11.2016, ÀS 12H03

Corações livres
Open Hearts

Dinamarca, 2002
Drama - 113 min.

Direção: Susanne Bier
Roteiro:
Susanne Bier, Anders Thomas Jensen

Elenco: Mads Mikkelsen, Sonja Richter, Nikolaj Lie Kaas, Paprika Steen, Stine Bjerregaard, Birthe Neumann, Niels Olsen, Ulf Pilgaard, Ronnie Hiort Lorenzen, Pelle Bang Sørensen, Anders Nyborg

Quase uma década depois, o manifesto dinamarquês Dogma 95 virou lenda. Pelo menos no Brasil. A prova disso é que Corações livres (Elsker dig for evigt, 2002) estréia com o carimbo Dogma # 28, mas de todos os outros 27 filmes anteriores que seguem os mandamentos minimalistas, só os primeiros libelos de Thomas Vinterberg e Lars von Trier, dois dos quatro idealizadores do movimento, ganharam visibilidade por aqui.

A moda passou, principalmente, pela sua própria incapacidade de seguir as dez condutas que estipulou. Por exemplo, o segundo, o quinto e o décimo mandamento - que proíbem trilhas sonoras, filtros/efeitos óticos e crédito ao diretor, respectivamente - não duraram até o filme de número cinco. Uma pena, pois detrás da cortina mercadológica e do pretenso rigor dos dinamarqueses pulsa uma safra de obras realmente pertinentes.

Corações livres não é a melhor, mas está na lista das que desrespeitam as regras do despojamento. A mais crucial das transgressões da diretora Susanne Bier fere diretamente a cláusula oitava. Segundo esta, o Dogma 95 não aceita filmes de gênero, mas Susanne desenvolve um legítimo melodrama.

Joachim (Nikolaj Lie Kaas) pede Cecilie (Sonja Richter) em casamento logo nas primeiras cenas. Mas é atropelado por Marie (Paprika Steen, de Festa de Família) e acaba tetraplégico. A noiva fica atordoada. Sofre quando um agressivo Joachim ordena aos berros que ela vá embora, viva uma outra vida, desista de cuidar de um inválido. Depois do acidente, Marie também entra em choque, mas recebe o apoio dos filhos e do marido, o médico Niels (Mads Mikkelsen). A paz voltaria à casa da família - se Cecilie, desamparada com as suas visitas frustradas ao hospital, não se apaixonasse pelo médico que a conforta.

Acostumados com a fórmula hollywoodiana de melodramas, temos alérgica tendência a recusar o gênero. De fato, nessa ciranda de traição, adultério e culpa, é muito fácil cair nos chavões típicos de um Supercine.

Mas Corações livres se mostra desde o início disposto a exorcizar essa comparação - como ironizam as passagens em que Cecilie se abriga nas músicas em inglês que escuta no rádio, espécie de escapismo pop diante da frieza da realidade, e cujos fragmentos maculam o silêncio do filme. Se a diretora consegue, efetivamente, se emancipar da fórmula, já é outra história.

Aos poucos fica evidente: no lugar da pieguice sugerida no título original - "Te amarei para sempre" - Susanne Bier investe na amargura. O seu filme está fadado a discursar sobre a verdadeira ligação de Joachim e Cecilie, sobre a redenção pós-trauma.

Entretanto, mais do que isso, o que se vê é um retrato atento do desamor que abate Niels e Marie. A excepcional direção de elenco não evita que a situação desemboque no moralismo, quando só os puros de sentimento terão finalmente a tal liberdade no maltratado coração. Mas, se serve de consolo, ao menos a tristeza dos condenados à solidão é genuína.

Corações Livres
Elsker Dig For Evigt
Corações Livres
Elsker Dig For Evigt

Ano: 2002

País: Dinamarca

Classificação: 14 anos

Duração: 113 min

Nota do Crítico
Ótimo

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