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Crítica

Chegadas e Partidas | Crítica

O sueco Lasse Hallström faz filmes acima da média.

Marcelo Hessel
19.12.2002
01h00
Atualizada em
21.09.2014
13h13
Atualizada em 21.09.2014 às 13h13

O diretor sueco Lasse Hallström faz filmes acima da média. Deu indícios disso em Minha Vida de Cachorro (Mitt liv som hund, 1985), quando foi indicado ao Oscar de Melhor Diretor. E provou em 1999, com Regras da Vida (The cider house rules), sua segunda indicação na categoria e prêmio da Academia para Roteiro Adaptado e Ator Coadjuvante (Michael Caine). Os críticos de Hallström, porém, costumam indicar certa pieguice e superficialidade no trabalho do diretor - e citam as suas parcerias com a produtora igualmente açucarada Miramax, como Chocolate (Chocolat, 2000), por exemplo.

Chegadas e Partidas (The Shipping News, 2001) deve alimentar essa pequena polêmica. Assim como os dois trabalhos anteriores de Hallström, o filme se baseia em um romance - no caso, homônimo de E. Annie Proulx, ganhador do Pulitzer em 1993. Narra a história de Quoyle (Kevin Spacey), um novaiorquino infeliz e inerte, cuja existência resume-se a empregos esporádicos e a recordações pouco agradáveis sobre sua relação com o pai. A vida de Quoyle piora quando ele conhece São poucos os fenômenos pop na história que podem repetir-se à exaustão sem perder o apelo (Cate Blanchett) uma vigarista sedutora. Abstinente sexual, o homem se apaixona imediatamente. Casam-se. Mas assim que nasce a pequena Bunny (interpretada pelas trigêmeas Alyssa, Kaitlyn e Lauren Gainer), Petal foge e o casal se dissolve. Quoyle sequer tem tempo para pensar: recebe, de sopetão, a notícia do suicídio dos seus pais e da morte de Petal e de seu amante, durante um acidente de automóvel.

Ao saber do suicídio, a tia de Quoyle, Agnis (Judi Dench), visita o sobrinho. Inconformada com tanta desgraça, decide levá-lo, junto com Bunny, para a Terra Nova, uma cidade pesqueira na costa do Canadá, coberta de gelo, terra-natal dos ancestrais da família. Em um novo ambiente, as transformações acontecem. Quoyle arruma um emprego como repórter no jornal local e conhece a reservada viúva Wavey Prowse (Julianne Moore).

Antes de mais nada, The shipping news é um livro de dificílima adaptação. Para se ter uma idéia da liberdade de composição de E. Annie Proulx, a autora escolheu aleatoriamente os nomes das personagens - Wavey Prowse, Petal, Beaufield Nutbeem, Bayonet Melville - dentre aqueles que considerava mais curiosos na lista telefônica. E ainda misturou lirismo, drama, temas pesados, humor negro e até elementos sobrenaturais na trama. Em uma passagem, um defunto renasce em pleno velório, enquanto Bunny sonha com casas caindo e cães brancos; em outro, um morador da cidade tem seu barco destruído quando se preparava para partir; no seguinte, Quoyle conhece o passado sombrio de incestos e de pilhagens de seus ancestrais.

Na tela, tantas personagens e tantas situações distintas tiram a atenção da linha principal: a redenção de Quoyle. Isso basta para levantar a questão da falta de aprofundamento de Hallström. No início da película, toda a relação com Petal fica prejudicada por cortes rápidos e narrativa apressada. Em seguida, quando surgem os acontecimentos mais pitorescos - e mais enriquecedores também -, o envolvimento do espectador fica prejudicado pela quantidade de informações acessórias. Em outras palavras, o roteiro é muito bom, engraçado e humano na medida certa, mas as escolhas do diretor são um pouco equivocadas.

No entanto, existem ótimos contrapontos, que fazem de Chegadas e Partidas um filme incomum. Hallström reforça o seu ponto forte, a boa escola de elenco e a boa direção de atores. Se Caine levou o Oscar de 2000 e Juliette Binoche foi indicada por Chocolate, Spacey não fica atrás. Foi indicado ao Globo de Ouro 2002, em meio a grandes atuações. Já Judi Dench assusta pela sobriedade, Cate Blanchett e Julianne Moore, sempre muito expressivas, reafirmam sua condição de grandes intérpretes da atualidade. Até as pequenas gêmeas Gainer se mostram bem competentes. No fim das contas, vale a premissa inicial: o sueco Lasse Hallström faz filmes acima da média.

Nota do Crítico
Ótimo