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Casshern | Crítica

<i>Casshern</i> - Festival do Rio

Mario "Fanaticc" Abbade
03.10.2005, às 00H00
ATUALIZADA EM 27.11.2016, ÀS 03H19
ATUALIZADA EM 27.11.2016, ÀS 03H19

Casshern
Japão, 2004
Ficção Científica - 141 min

Direção: Kazuaki Kiriya
Roteiro:
Kazuaki Kiriya

Elenco: Yusuke Iseya, Kumiko Aso, Akira Terao, Kanako Higuchi, Fumiyo Kohinata, Hiroyuki Miyasako, Jun Kaname, Hidetoshi Nishijima, Mitsuhiro Oikawa, Susumu Terajima, Hideji Otaki, Tatsuya Mihashi, Toshiaki Karasawa, Mayumi Sada

O público ocidental talvez não consiga suportar tantas reviravoltas, explosões e ação interrupta como se vê em Casshern (2004). A primeira coisa que virá à mente será uma explicação banal de que o filme é uma mistura de Neo de Matrix (1999), o espetáculo digital de Capitão Sky e o Mundo de Amanhã (2004), as máquinas do juízo final de Exterminador do Futuro (1984) e outras tantas referências. Bem, pode apagar tudo, pois esta ousada produção japonesa é anterior a tudo isso. Na verdade, este filme é de 2004, mas sua história começa em 1973 com o desenho animado Shinzo Ningen Casshan, que em inglês recebeu o título Robot Hunter Casshan.

Na animação de Tatsuo Yoshida (Speed Racer, Gatchaman), com direção de arte de Yoshitaka Amano (Sandman - Os Caçadores de Sonhos), andróides poderosos desenvolvidos por um cientista chamado Azuma ganham vida depois que um raio cai do céu. No momento de seu despertar eles entram em contato com seu ódio pela raça humana e organizam um verdadeiro exército de robôs assassinos. O filho de Azuma, Tetsuya, resolve ser voluntário para renascer como um herói biônico, Casshern, numa tentativa desesperadora de salvar o mundo. Nos anos 90 desenvolveram a mesma história em quatro episódios de trinta minutos com o título de Casshan: Robot Hunter. Ambas as produções foram exibidas na TV.

Nessa nova versão, vários aspectos da história original foram mudados, mas a essência continua a mesma. O que era um conto sobre um herói solitário enfrentando um inimigo quase indefectível, tornou-se uma grandiosa declaração de como a raça humana é destrutiva por si só e que a única solução é aprender a co-existir. Essa mensagem bastante simples, mas ao mesmo tempo vital para nossa sobrevivência, veio embalada em imagens tão espetaculares que é possível que seus globos oculares e ouvidos explodam junto com a hecatombe visual proposta pelo diretor Kazuaki Kiriya.

Na trama atual, Azuma é um geneticista obcecado em encontrar uma cura para sua esposa, Midori. Ela adoeceu devido à devastação do meio ambiente por causa de uma guerra de 50 anos entre a Grande Federação do Leste e a Europa. O filho do casal, Tetsuya, resolve se alistar na Federação inspirado por amigos que foram para a guerra. Essa decisão não é aprovada por seus pais ou por sua noiva, Luna. Aborrecido com a decisão do filho, Azuma se entrega ao desenvolvimento das neo-células. Com essa tecnologia ele conseguiria recriar vida em órgãos mortos. Equivale aos reais estudos da célula tronco na reconstituição de tecido morto.

Sua pesquisa está sendo financiada pelo Departamento de Saúde e conta com a aprovação dos militares através do sórdido empresário Naito, em benefício do general Kamijo. O filho do general também aprova a idéia, mas pretende tomar o poder para si próprio. Durante testes e experiências, um incidente nas instalações provoca uma regeneração nas partes de centenas de pedaços de corpo humano. Eles acabam se reintegrando numa forma humana. Agindo instintivamente, os militares tentam aniquilar as abominações. Quatro deles conseguem sobreviver levando Midori como refém. Depois de caminhar perdidos encontram um castelo abandonado nas montanhas. Lá, dão de cara com um verdadeiro arsenal de robôs e Brai, o líder, resolve usá-los para se vingar da raça humana. Enquanto isso, por uma série de razões, Tetsuya acaba se transformando em Casshern e resolve enfrentar Brai e seu exército de robôs.

Toda essa história acontece em 40 minutos de projeção. Depois disso são quase duas horas de ação tresloucada em que muitas revelações são feitas, novos personagens aparecem e as cenas de luta lembram o filme Herói, de Zhang Yimou. Poder ver um homem voando, correndo pela lateral de prédios e transformando robôs em uma massa disforme de metal é um banquete para os olhos. A ousadia lembra as batalhas do cavaleiro jedi Mace Windu na animação Guerras Clônicas, de Star Wars. Quando se pensa que já acabou, surge alguma coisa nova e estarrecedora. Amantes de mangá e animações no estilo Ghost in the Shell ficarão enlouquecidos.

Os cenários são belíssimos. São misturas do moderno, do high tech, embalados com a onda retrô. Alguns irão pensar em Steamboy (2004) e Capitão Sky, mas a inspiração é ainda mais antiga. Percebemos uma forte influência do clássico Metropolis (1927), do cineasta alemão Fritz Lang. Prédios imensos, naves nababescas e uma marcha de robôs de causar inveja aos martelos marchadores de Pink Floyd the Wall. Tudo isso oprimindo os personagens numa mistura de expressionismo com um futuro totalitaristamente industrial.

Mas o filme não é só efeitos digitais. O diretor Kazuaki Kiriya filma os personagens com seus rostos levemente sombreados, mostrando que todos são culpados de algum crime. Nas cenas de guerra que envolvem Tetsuya, a escolha foi um tom acinzentado, nos remetendo à idéia de que a guerra não é colorida. Com exceção de uma cena cheia de cores, que está lá para provar que Tetsuya tentava fazer a coisa certa. Como não podia deixar de ser, as atuações são todas exageradas, como esse tipo de produto pede. Os personagens fazem caras e bocas e agem irracionalmente com gritos e movimentos bruscos, seguindo as tradições do mangá.

Com medo de que os não familiarizados com esse tipo de estética não entendessem a mensagem do filme, Kazuaki Kiriya ainda colocou uma narração em off para explicar o destino dos personagens e suas reais intenções. Mesmo assim o filme foi acusado por alguns setores da crítica de ser inovador visualmente, mas com falta de substância. Parece não ter solução, pois enquanto o ocidente não se despir dos preconceitos e abrir a mente, nem com manual de instruções será possível agradar.

Nota do Crítico
Bom
Casshern
Casshern
Casshern
Casshern

Ano: 2005

País: Japão

Classificação: 14 anos

Duração: 142 min

Elenco: Yûsuke Iseya

Onde assistir:
Oferecido por

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