Anita Não Perde a Chance | Crítica
<i>Anita não perde a chance</i>
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Talvez você não saiba exatamente o motivo, mas o cinema já recebeu, ao longo dos anos, uma série de denominações simpáticas, com tela luminosa, sétima arte e agitador das almas.
Em vez de arriscar uma explicação para esse fenômeno, a protagonista de Anita não Perde a Chance (Anita no Perd el Tren, Espanha, 2001) apenas reitera o fascínio e faz uma ressalva: O cinema é melhor do que a vida real - apesar de que qualquer coisa é melhor do que a vida real.
Na verdade, o filme é a própria declaração de amor do diretor catalão Ventura Pons ao cinema, assim como A Rosa Púrpura do Cairo foi para Woody Allen. Reconhecido como um dos mais hábeis devassadores da alma espanhola, Pons, de 58 anos, é um habitué do Festival de Berlim, tem recebido diversos prêmios mundo afora e presidiu, neste ano, o corpo de jurados do Festival de Mar del Plata. No Brasil, ainda não obteve repercussão à altura de seus compatriotas Pedro Almodóvar e Julio Medem; mas seus filmes já integraram eventos como a Semana de Cinema Espanhol e o Festival do Rio BR.
As paixões desestruturadas, os conflitos existenciais e as situações-limites são temas recorrentes em seu trabalho. Anita (Rosa Maria Sardá), por exemplo, é uma cinqüentona fragilizada pelo desemprego e pela carência afetiva. Antes de perder o emprego, havia sido bilheteira, por três décadas, no modesto Cine Capri. Enquanto exercia seu ofício, passiva mas sempre atenta aos freqüentadores do local, sentia-se num observatório do mundo. Afinal, era ali - na cabine de venda de ingressos - que ela conhecia as mais distintas opiniões e atitudes, os mais variados tipos cinéfilos, dos adeptos de pornôs aos intelectualóides, além dos fãs de blockbusters.
Envolvimento, mesmo, só quando Anita passava da bilheteria para a sala de exibição - e de funcionária para espectadora. Ao todo, acabou assistindo a 2424 filmes, sem contar mais 288 curtas-metragens. Fora da sala, segue associando vários episódios de sua vida a cenas marcantes de filmes. O cinema nunca saiu de minha cabeça, confessa.
Que fazer, então, quando o patrão resolve vender o Cine Capri e demitir Anita? O modesto cineminha vai ser demolido, para dar lugar a um moderníssimo multiplex. A antiga bilheteira não está mais nos planos, por causa da idade avançada, da aparência reveladora do envelhecimento. A qual escapismo ela deve recorrer, agora que seu observatório do mundo desabou, literalmente?
Se o cinema parece ser melhor do que a vida real, é justamente porque instiga o nosso imaginário, levando-nos a aceitar a ilusão redentora, e não a realidade sufocante. A Cecília de A Rosa Púrpura do Cairo ia diariamente ao cinema - chegava a ver várias vezes a mesma película. Tudo para aliviar as pressões decorrentes da Grande Depressão dos anos 30, do casamento mal-sucedido e da vidinha tacanha e desinteressante. Na quinta vez em que assiste ao seu filme predileto, o personagem interrompe a encenação na tela, vira-se para Cecília e vai ao encontro dela. À parte a parábola, não houve melhor demonstração de como as pessoas aderem à utopia cinematográfica.
Em Anita não Perde a Chance, se não há tamanha fantasia, ao menos se repete a idéia da fixação pontual, diária. Anita volta dia após dia ao endereço do antigo cinema, onde agora se iniciaram as obras do multiplex. Os trabalhadores simpatizam com sua presença, a ponto de elegê-la como a musa deles. Um desses obreiros, Antoni (Jose Conorado), responsável pela escavadeira, passa a notá-la ainda mais que seus colegas, apaixona-se por ela e, mesmo casado, envolve-se com Anita. A relação adúltera se transforma no melhor escape do casal, mas Anita teme: Os homens são como as nuvens. Quando somem, os dias ficam lindos.
É bem verdade que o final de Anita deixa a desejar. De todo modo, o filme é um pretexto inadiável para rirmos enquanto pensamos em nossas vidas, para conhecermos melhor a produção audiovisual espanhola e, sobretudo, para entendermos por que o cinema é, definitivamente, mais apaixonante do que a realidade.
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