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Crítica

Agora ou Nunca | Crítica

Leigh esquadrinha sem dificuldades um cenário de imensa desolação

Marcelo Hessel
21.08.2003, às 00H00
ATUALIZADA EM 21.09.2014, ÀS 13H14
ATUALIZADA EM 21.09.2014, ÀS 13H14

O estilo de trabalho do roteirista e cineasta inglês Mike Leigh se baseia na versatilidade coletiva. Vencedor da Palma de Ouro de Cannes, em 1996, por Segredos e Mentiras (Secrets & Lies), Leigh não utiliza scripts pré-definidos. Assim que elabora um tema, passa de quatro a seis meses ensaiando com seus atores. O roteiro final surge das improvisações bem coordenadas e das criações capitaneadas pelo próprio elenco. Cada protagonista tem integral liberdade sobre o destino e a caracterização do seu personagem.

Graças a essa conduta, maturada durante os trinta anos em que trabalhou na televisão britânica, Leigh extrai do seu grupo o máximo de naturalidade. Esse é o atrativo principal, por exemplo, de Topsy Turvy - O Espetáculo (1999), baseado nas óperas do Século XIX da dupla Gilbert e Sullivan, no qual o elenco canta, dança e interpreta - como se todos ali fossem, de fato, especialistas no assunto.

Mas Topsy Turvy pecava pelo preciosismo, pelo excesso de detalhes, coisa que o diretor soube evitar muito bem em seu mais novo trabalho, Agora ou Nunca (All or Nothing, 2002). Mais maleável, equilibrado entre a ironia perversa e o apelo sentimental, e eficiente no subtexto e nas entrelinhas, o filme flui melhor que seu antecessor, sem perder em intensidade. Facilita bastante, também, o fato de se tratar de um tema mais acessível: as vidas desglamourizadas num subúrbio de Londres.

Em um condomínio de classe baixa, várias famílias dividem fracassos semelhantes: alcoolismo, gravidez indesejada, ociosidade, falta completa de perspectiva. A principal delas, liderada pelo taxista Phil e pela caixa-de-supermercado Penny (respectivamente Timothy Spall e Lesley Manville, presentes nos dois filmes anteriores de Leigh), segue inerte em indisfarçável torpor. Penny vive em depressão, desrespeitada pelos filhos. Phil acorda tarde, guia seu táxi nos horários de menor movimento - e repete a toda hora que o futuro depende do destino, no melhor estilo quem sabe o que reserva o dia de amanhã?.

Quando interagem (somente à mesa de jantar), a conversa é monotemática. Phil diz que encheu o tanque do táxi. Custou 38 libras. Conta um caso do dia, quando pegou um velhinho debilitado, que queria apenas chegar ao cemitério, a um quarteirão dali. E você cobrou dele?, pergunta Penny, indignada. Cobrei a taxa mínima. Não ia pedir nada, mas ele fez questão de pagar. Como se diz... questão de dignidade, responde um Phil fraco, quase um ogro envergonhado.

Com essas tiradas sutis, Leigh esquadrinha sem dificuldades um cenário de imensa desolação. Claro, como diz o título, chega uma hora em que um baque terrível acorda os personagens. Phil e Penny desabafam em dez minutos o que não disseram nos 120 restantes. Nesta hora, gigantescos, ator e atriz enchem a tela de competência e, por tabela, enchem também o coração do espectador. Muito mais do que simplesmente melancólico, Agora ou Nunca tem diálogos perfeitos, condução segura e edição que balanceia bem as tramas paralelas. Mas é outro talento habitual de Leigh, a sintonia com o elenco, que faz a diferença em mais este belíssimo filme.

Agora ou Nunca
All Or Nothing
Agora ou Nunca
All Or Nothing

Ano: 2002

País: Inglaterra, França

Classificação: LIVRE

Duração: 128 min

Direção: Fred Worden

Nota do Crítico
Excelente!

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