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A Menina da Baía dos Anjos | Crítica

<i>A menina da baía dos Anjos</i>

ÉF
08.09.2005, às 00H00.
Atualizada em 20.12.2016, ÀS 05H04

A menina da baía dos Anjos
Marie Baie des Anges
França, 1997
Drama - 90 min

Direção: Manuel Pradal
Roteiro: Manuel Pradal

Elenco: Vahina Giocante, Frédéric Malgras, Nicolas Welbers

A Baía dos Anjos, em torno de Nice, era o lar de uma espécie de tubarão chamada "anjo do mar". A lenda diz que as duas enormes pedras em forma de barbatanas protegeram a região de invasões estrangeiras no passado. Para agradecer a proteção, a princesa que vivia no local teria sacrificado uma criança aos tubarões. De acordo com o diretor e roteirista Manuel Pradal, essa lenda de seu primeiro longa-metragem foi o ponto de partida para uma alegoria da Riviera Francesa que apresenta a baía como um local paradisíaco, belíssimo, mas que esconde um aspecto caótico e problemático.

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E haja problemas. A cena inicial tem a locução em off resumida dessa lenda, enquanto as imagens mostram um garoto dando um tiro no outro dentro do mar. Ou seja, a dissonância cognitiva da voz calma e onisciente não retrata as duas "barbatanas" juvenis em conflito, nada protegidas pelos tais deuses contra as invasões.

A Menina da Baía dos Anjos (França, 1997) mostra um verão na vida de dois adolescentes tempestuosos. Marie (Vahina Giocante), 15 anos, é considerada a "Lolita" das praias. Com seu apetite pelas descobertas e provocações sexuais, ela decide que este será o verão mais importante da sua vida. Caminha pelas ruas da Baía dos Anjos mas, na verdade, está interessada no grupo de marinheiros norte-americanos em temporada na região. Eles a recebem, a alimentam e a divertem em seu alojamento, e essas conquistas realizam o sonho da menina por champanhe, homens mais velhos e boates. Orso (Frédéric Malgras) é um delinqüente de 17 anos, capaz de qualquer coisa para conseguir algum dinheiro. Ele espreita as florestas e praias com gangues de outros garotos igualmente rebeldes, quase tão primitivos quanto a geografia da região. Depois de um primeiro encontro, Orso e Marie descobrem que se sentem atraídos um pelo outro, e fogem juntos para uma ilha isolada, idílica.

O filme é praticamente um anti-Rohmer. Expõe seus personagens num ambiente bucólico e escapista, deixando para a natureza dar as explicações para os conflitos do ser humano. Há sim, um vai-e-vem de affairs, encontros e desencontros. Entretanto, com pouquíssimos diálogos, e as relações amorosas não são nada dilemáticas ou problematizadas. A Menina da Baía dos Anjos elimina qualquer possibilidade de aprofundamento nos questionamentos sobre o tema dentro do próprio filme. Tudo é muito mais movido por impulsos, ações e reações quase animalescas de provocação. Trata-se de um filme instintivo, olfativo, orgânico, que não encontra lugar para a elaboração, mesmo que conflituosa, de psicologizações racionais. É como se o impacto das imagens fosse mais forte do que a tentativa de dar conta do entendimento do comportamento humano.

Nesse sentido, A Menina da Baía dos Anjos encontra maior ressonância com a obra de Godard. Primeiro, pela ruptura lingüística. O espectador fica meio perdido ao tentar decifrar onde está ou deixa de estar o flashback. Imagens que voltam para o passado, "colam" em outras do presente e ficam o tempo todo pra lá e pra cá, mais insinuando do que seduzindo o público. Há uma valorização pelo silêncio e pelos sons diegéticos do ambiente, como o barulho do mar, o estampido do revólver e outros pormenores sonoros. Segue-se aqui à risca a lógica de que as cenas são mais importantes do que o discurso. A ordenação confusa dos fotogramas, num subliminar paralelismo ao universo caótico dos personagens, é uma maneira de tentar deixar atordoado aquele que procura fazer os julgamentos sobre aquilo que está vendo. Os sintagmas cristalizados, as frases feitas e a ideologia pré-fabricada em torno da construção de caráter dos envolvidos na história são deixados de lado.

Outro aspecto relevante é a presença dos norte-americanos no território. Há uma ridicularização evidente em sua caracterização, retratada no microcosmo como metonímia do macrocosmo. São estupradores, numa leitura mais semiológica, "invadem" planícies alheias sem permissão. São hedonistas e beberrões, ou seja, estão mais voltados ao prazer imediato e ao consumo sintético de bem-estar. Fazem parte do corpo da Marinha, uma das entidades que protegem as fronteiras do país e conquistam outras. São meio abobalhados, o que denota uma certa estabilidade, pois não estão preparados para os pequenos furtos da trama e para os acasos e imprevistos num espectro mais global.

Essa opção minimalista porém não reducionista de visão de mundo é a força de um trabalho complexo. O impulsivo que toma o lugar do elaborado, o sensorial que rouba a presença do analítico, são escolhas de significados vários mesmo que tiradas a partir da raiz de seus significantes. Apesar de encaixotada num oásis paradisíaco, a visão de mundo do diretor é que, de anjo, a sociedade não tem nada.

Érico Fuks é editor do site cinequanon.art.br

Nota do Crítico

Bom
Érico Fuks

A Menina da Baía dos Anjos

Marie Baie des Anges

1997
90 min
Drama
País: França
Classificação: 16 anos
Direção: Manuel Pradal
Roteiro: Manuel Pradal
Elenco: Vahina Giocante, Frédéric Malgras, Nicolas Welbers
Onde assistir:
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