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Crítica

A Liga Extraordinária | Crítica

O filme flerta com a erudição, mas acaba se aproximando da fórmula dos X-Men

Marcelo Hessel
11.09.2003
00h00
Atualizada em
21.09.2014
13h14
Atualizada em 21.09.2014 às 13h14

O sucesso na tela não será forçosamente o resultado do bom funcionamento de nosso cérebro, mas sim da harmonia entre elementos pré-existentes dos quais nem mesmo tínhamos consciência.

A frase professoral é de François Truffaut (1932-1984), mas martela a mente de qualquer diretor de cinema:para fazer um filme decente, além de uma idéia e uma câmera, você precisa ter muita sorte.

Quando o inglês Stephen Norrington finalizou Blade (1998), por exemplo, o vento soprou a seu favor - aquilo que parecia fadado ao fracasso, na verdade, recuperou o interesse do público por super-heróis de HQ nos cinemas. Mas cerca de quatro anos depois, Norrington conheceu o azar na mesma proporção, em A Liga Extraordinária (The League of Extraordinary Gentlemen, 2003).

Para começar, ele viu a base do gibi de seu conterrâneo Alan Moore ser esquartejada pelos executivos norte-americanos, num ilógico entra-e-sai de personagens. Em seguida, diante de Sean Connery, conheceu a gana centralizadora do Sir escocês, astro e produtor da película. Pouco importa se os dois saíram no tapa como se boatou na época. O fato é que Norrington saiu enfraquecido e teve que aceitar a intrusão de Connery até na sala de edição. Para completar, durante as filmagens em Praga, as tempestades que castigaram a República Tcheca em 2002 inundaram estruturas e sets no valor de sete milhões de dólares.

Se Norrington diz hoje que não quer mais trabalhar em Hollywood, é porque conheceu bem de perto as engrenagens da sua indústria, além desses infortunados elementos pré-existentes de que tratava Truffaut. Assim, não é de se espantar que A Liga Extraordinária tenha ficado tão ruim.

Idiota e frouxo

A trama transcorre na Europa da Era Vitoriana, final do século XIX, quando um suposto Fantasma, com seu arsenal avançadíssimo, pretende estimular intrigas internacionais e iniciar uma Guerra Mundial. Para combatê-lo, o governo da Inglaterra recruta os senhores do título - extraordinários, mas não exatamente bons moços. São eles o caçador rebelde Allan Quatermain (Sean Connery), a vampira Mina Harker (Peta Wilson), o gatuno Homem Invisível (Tony Curran), o cientista de dupla personalidade Dr. Jekyll/Mr. Hyde (Tony Curran), o agente secreto norte-americano Tom Sawyer (Shane West), o pirata Capitão Nemo (Naseeruddin Shah) - comandante do submarino Nautilus - e o imortal Dorian Gray (Stuart Townsend).

Na minissérie em quadrinhos - seis edições lançadas nos Estados Unidos em 1999 pela Americas Best Comics, com segundo volume em 2002 - Moore segue sua linha usual de desencanto com o mundo, atmosfera sombria, humor refinado e brutalidade. Mas ao reunir numa mesma história os maiores heróis e anti-heróis britânicos dos livros de ficção científica e de aventura, o britânico adicionou ao caldo o elemento das referências literárias. Não à toa, A Liga... foi um sucesso editorial.

Já o filme flerta com essa erudição, mas acaba se aproximando da fórmula consagrada dos X-Men: ação entre amigos e correria desenfreada, num ritmo de cortes quase irritante. E sobram as distorções. Várias, aliás. O Capitão Nemo arrisca chutes de Jet Li. O Homem Invisível, com o perdão da piada, some e reaparece sem explicações. Na HQ, Mina Harker é tida como a líder. No filme, claro, Connery chama para si a responsabilidade. Nos quadrinhos, Dorian Gray não é sequer citado. No filme ele surge ao lado de um Tom Sawyer adolescente, incluído na última hora pelos produtores, que temiam uma recusa do público americano diante de super-heróis unicamente ingleses.

Minúcias à parte, A Liga... seria um filme razoável se os problemas se limitassem apenas à escalação do time. Mas a obra sofre nas duas pontas (de um lado um vilão sem expressão, do outro Connery como uma caricatura burocrática de si mesmo) e deixa o miolo sem identidade. O visual é débil, com elementos digitalizados muito artificiais - o que implode qualquer filme de ação que usa o CGI como muletas. E fica a pergunta: porque a produção viaja até Praga, Marrocos e Islândia para gravar locações se, no final, predominam cenários escuros criados no computador?

Os bons destaques, como a saborosa interpretação de Stuart Townsend como o esnobe Dorian Gray, se perdem diante de tantas falhas. Certa vez, Truffaut disse também que um filme idiota mas enérgico pode ser melhor cinema que um filme inteligente e frouxo. A Liga... não tem a inteligência de Moore nem a energia dos X-Men. Resulta, então, idiota e frouxo.

A Liga Extraordinária
LXG - The League of Extraordinary Gentlemen
A Liga Extraordinária
LXG - The League of Extraordinary Gentlemen

Ano: 2003

País: EUA

Classificação: 12 anos

Duração: 0 min

Nota do Crítico
Regular

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