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Crítica

A Fantástica Fábrica de Chocolate | Crítica 1

<i>A fantástica fábrica de chocolate</i>

Érico Borgo
21.07.2005
00h00
Atualizada em
21.09.2014
13h18
Atualizada em 21.09.2014 às 13h18

A fantástica fábrica de chocolate
Charlie and the Chocolate Factory, EUA, 2005
Aventura - 106 min

Direção: Tim Burton
Roteiro: John August, baseado em livro de Roald Dahl

Elenco: Johnny Depp, Freddie Highmore, David Kelly, Helena Bonham Carter, Noah Taylor, Missi Pyle, James Fox, Deep Roy, Christopher Lee, Adam Godley, Franziska Troegner, Annasophia Robb, Julia Winter, Jordon Fry, Philip Wiegratz, Liz Smith, Eileen Essell, Nitin Chandra Ganatra, Shelley Conn, Chris Cresswell, Philip Philmar, Harry Taylor, Francesca Hunt

A história do filme você deve conhecer. O recluso Willy Wonka decide lançar um concurso mundial para escolher quem poderá visitar sua fantástica fábrica, fechada para o mundo há 15 anos. Assim, cinco crianças sortudas - incluindo o garoto pobretão Charlie - encontram bilhetes dourados nas barras de chocolate Wonka e ganham uma turnê pela lendária fábrica de doces, iniciando uma incrível jornada...

Trata-se de um dos clássicos mais queridos da Sessão da Tarde dentre a turma dos 20 e muitos: A fantástica fábrica de chocolate (Willy Wonka & the Chocolate Factory, 1971). Tendo o consagrado Gene Wilder como o excêntrico chocolateiro, a fantasia sobreviveu ao teste do tempo, cativando também novas gerações e, melhor ainda, ganhou status de ícone pop. Quem não se lembra da música dos Umpa-Lumpas que atire o primeiro bombom.

Com tanto carinho pela obra cinematográfica, era de se esperar que houvesse uma enxurrada de reclamações para a Warner Bros quando foi anunciada a sua refilmagem. Não foi o caso. Logo de início a Warner Bros informou que o responsável pela nova adaptação do livro do britânico Road Dahl (1916-1990) seria Tim Burton, sujeito quase tão peculiar quanto o personagem principal da aventura.

E Burton não decepcionou. Não só traduziu em incríveis - e quase narcóticas! - imagens os cenários imaginados por Dahl (ok, algo que o filme de 1971 também fez com louvor), como também expandiu conceitos do livro e eliminou arestas do primeiro longa.

Novamente trabalhando ao lado de John August, roteirista de Peixe grande, Burton propõe uma nova interpretação do texto de Dahl com uma exploração do passado de Wonka, em busca dos motivos que o tornaram um solitário fabricante de doces. O desenvolvimento da novidade é um tanto batido, mas se encaixa perfeitamente na trama. Afinal, se ela tivesse sido criada pelo próprio Dahl talvez não tivesse ficado muito diferente, já que o autor e Burton são parecidíssimos em seu senso de humor levemente distorcido.

Outra cena que encontrou pela primeira vez o caminho das telas foi a da Sala das Nozes. Originalmente convertida no cinema em uma Sala de Gansos dos Ovos de ouro, a seqüência exigia dezenas de esquilos treinados, algo que deve ter assustado o diretor do original, Mel Stuart. Mas hoje em dia, em tempos digitais, nada mais fácil que colocar 40 Ticos e Tecos em cena. Felizmente, Burton não pensa assim, em termos de zeros e uns. O cineasta enfiou quarenta bichos de verdade em seu filme! E eles fazem valer a opção pelo realismo. O momento em que a menina Veruca é subjugada pelas fofuras peludas seria aterrador, não fosse o contexto pastelão. Sabe a cena do cavalo em O chamado? Com o reflexo de Naomi Watts nos olhos do eqüino? É quase a mesma coisa aqui. Só mesmo Burton pra incorporar algo assim num filme infantil e passar incólume.

Mais uma das maravilhosas excentricidades do diretor é a Sala de Televisão. Homenagem estética explícita ao mestre Stanley Kubrick, a cena chega ao cúmulo de incorporar momentos antológicos de 2001 - Uma odisséia no espaço à ação. A criançada, claro, não entende patavina, mas as gargalhadas adultas preenchem a sala. Isso sim é diversão pra toda a família.

Burton também foi felicíssimo na escalação do elenco. Todas as crianças - Augustus (Philip Wiegratz), Veruca (Julia Winter), Mike (Jordan Fry) e Violet (AnnaSophia Robb) - maquiadas e vestidas de forma a parecerem caricatos estereótipos de má-criação, estão perfeitas. O bonzinho Charlie (Freddie Highmore) faz aquelas carinhas chorosas que já havia mostrado ao mundo em Em busca da Terra do Nunca e o excelente David Kelly faz um vovô Joe saído diretamente das páginas de Dahl. Mas é na retomada de sua parceria com Johnny Depp que Burton é ainda mais feliz, já que quanto mais bizarro o papel, mais o ator parece empenhar-se em construí-lo.

Há dois anos, Depp apresentou ao mundo o engraçadíssimo pirata Jack Sparrow, o Keith Richard da época das grandes navegações. Agora, cria um Wonka que chega a ser perturbador de tão estranho. A referência imediata ao personagem tem nome: Michael Jackson, ele também um rei das esquisitices. A pele alva, a voz suave, as roupas extravagantes e a vida numa terra de contos de fadas do chocolateiro remetem imediatamente ao rei do pop. Mas Depp, provavelmente preocupado com a polêmica que o nome de Jackson ainda causa com suas terríveis acusações, nega tudo. Eu diria, se tivesse que compará-lo com alguém, que seria mais um Howard Hughes, tipo reclusivo, bacterofobo, possessivo..., tentou explicar o astro, sem sucesso. Afinal, se existe alguém pior que Jackson é o Aviador Hughes. E não falo da versão bonitinha recém-divulgada nas telas por Martin Scorsese! De qualquer forma, o Wonka de Burton/Depp é sinistro, trágico e hilariante. Tudo ao mesmo tempo. Igualzinho ao do livro.

E se tudo parece incrivelmente divertido até aqui, ainda nem cheguei na melhor parte. Os novos Umpa-Lumpas (todos interpretados pelo anão Deep Roy) são espetaculares. Literalmente. Todos os números musicais, compostos e cantados por Danny Elfman, são uma espécie de Moulin Rouge infantil. Os ritmos, figurinos e coreografias se alternam num frenesi criativo surpreendente. Heavy metal, Rap, Beatles, a Hollywood clássica e tantas outras referências desfilam na telona. Nunca a cantoria num filme infantil foi tão bem-vinda!

Com tantos pontos positivos, dá pra afirmar que A fantástica fábrica de chocolate (agora batizada em inglês como Charlie and the Chocolate Factory) de Burton não só conseguiu ser o filme mais legal da temporada de férias 2005, como também será lembrado pelas novas gerações com o mesmo carinho que o original. Sem dúvida, um longa digno da gloriosa Sessão da Tarde!

Nota do Crítico
Ótimo