I Love Boosters faz fábula artesanal, vívida e subversiva da luta de classes
Filme de Boots Riley se encontra – e encanta – dentro da própria bagunça
Créditos da imagem: Keke Palmer em I Love Boosters (Reprodução)
Em entrevista ao Omelete, o diretor Boots Riley disse que o critério para decidir o que incluir nos seus filmes é um só: "Isso é legal, ou não é legal? Se for legal, eu faço”. Essa abordagem meio kamikaze fica mais do que clara no início de I Love Boosters, comédia de pendor surrealista sobre um grupo de ladras de roupa (lideradas por uma aspirante a estilista, vivida por Keke Palmer) que se veem antagonizadas pela dona de uma marca de luxo (Demi Moore) – e enredadas em uma disputa sócio-trabalhista muito maior do que elas.
Isso porque, a princípio, tudo em I Love Boosters parece meio desconexo de todo o resto. Riley é um cineasta obviamente inventivo, abençoado com um dom para o humor visual e uma vontade de brincar com a mídia que poucos de sua estirpe demonstram hoje em dia. E é, sem dúvida, um prazer assistir a um filme de orçamento considerável (feito por US$ 20 milhões, Boosters não é nenhuma produção ultra-indie) que não tenta desesperadamente se adequar a um formato pré-definido de prestígio.
A começar pelo trabalho essencial de figurino, assinado por Shirley Kurata (Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo), I Love Boosters abraça uma estética pop organizada em blocos de cores monolíticos que aos poucos vão sendo manchados por esguichos de contraste. E Riley faz esse caleidoscópio funcionar em harmonia, regendo trabalhos extravagantes no design de produção (Christopher Glass, de Ms. Marvel) e fotografia (Natasha Braier, de Demônio de Neon) para encontrar todas as piadas possíveis – algumas, completamente improváveis – dentro de cada encenação.
O primeiro ato do longa, no entanto, elicita apenas deleites passageiros. É só lá da metade para frente que todas as ideias fabulosas de I Love Boosters se solidificam no quadro narrativo potente que ele estava destinado a se tornar. É como se Riley finalmente se encontrasse, também, dentro do próprio texto, rearranjando pedras de toque criativas (a bola de preocupação que segue a protagonista pelas ruas, o sedutor misterioso vivido por LaKeith Stanfield, a filosofia de arte em nome da arte da vilã…) em um manifesto coerente que tem a solidariedade e a organização revolucionária como impulsos centrais. Ele, enfim, encontra “o que é legal”.
A partir daí, o filme ganha força tremenda. Como estudo de personagem, ele acha em Palmer um trunfo – sempre dinâmica, mas nunca dispersa em tela. Como fábula, ele abraça o absurdo sem perder de vista as lições palpáveis que tem a transmitir quando reconhece a luta de classes como o coração dos conflitos contemporâneos. E, como confecção cinematográfica, ele só ganha mais força a partir do momento em que suas escolhas (todas, de fato, legais pra caramba) se conectam com tanta força a uma mensagem na qual ele acredita com tanta convicção.
Enfim, pode ser que I Love Boosters demore um pouquinho para pegar no tranco, mas a viagem certamente vale a pena.
*I Love Boosters foi exibido na 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. O longa estreia em 19 de novembro no circuito comercial.
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