Hotel Artemis

Créditos da imagem: Global Road/Reprodução

Filmes

Crítica

Hotel Artemis

Bom de premissa e ruim de entrega, Drew Pearce estreia como diretor com distopia panorâmica

Marcelo Hessel
12.09.2018
17h46
Atualizada em
13.09.2018
13h19
Atualizada em 13.09.2018 às 13h19

Roteirista de Homem de Ferro 3 e da série de TV No Heroics, Drew Pearce estreia na direção de longas com Hotel Artemis debaixo de uma expectativa considerável: premissa engenhosa, elenco respeitável, potencial pop visível. Pearce precisa, porém, se mostrar mais um contador de histórias completo do que um mero argumentista com boas sacadas, e o peso do primeiro longa pesa nas costas.

A trama se passa numa Los Angeles futurista em que a lei responde de forma violenta ao domínio do crime sobre a cidade. Explode uma guerra civil, logo entendemos que é a reação nervosa da sociedade a anos de repressão e descaso. Pearce não entra tanto em detalhes, e o contexto fica meio livre; trata-se mais de uma distopia californiana como a de Fuga de Los Angeles, em que a cidade finalmente deixa suas máscaras de civilidade e se organiza no cada-um-por-si de gangues e freelancers, todos juntos na autodestruição.

O que Pearce se dedica a detalhar é o hotel do título, onde se passa quase toda a trama (com exceção de flashbacks e de uma cena de ação introdutória). Sócios do Artemis podem se refugiar no hotel e passar por cuidados médicos se necessário, longe do alcance da polícia, e é lá que se encontram os personagens do filme em meio ao caos, quatro bandidos com necessidades, interesses e missões distintas, todos sob os cuidados da Enfermeira (Jodie Foster), que é quem administra o Hotel Artemis e nos explica a maior parte das regras desse cenário futurista art déco.

Cria de uma geração que viu os games mimetizarem a narrativa dos filmes, Pearce aproxima seu longa mais das ficções científicas explicativas dos games com pretensões artísticas, como BioShock. Assim, sua narrativa chama mais atenção para o design de produção e como ele define esse mundo, do que para os personagens em si. Com Foster, passeamos pelo ambiente em um tour expositivo que logo de cara já caracteriza Hotel Artemis mais como uma experiência panorâmica para o espectador do que necessariamente imersiva. Se havia o risco de Pearce se mostrar aqui mais um argumentista fã dos referenciais do pop, do que exatamente um construtor de mundos, esse risco aos poucos começa a se consumar em seu filme.

No geral, tudo aquilo que serviria de alicerce para essa realidade (as regras do hotel, a tecnologia) e de complemento para a visão de mundo (o fetiche do futurismo, o apelo da violência e do cool) acaba se tornando o próprio corpo de Hotel Artemis. Rebaixados então a figurantes de luxo, os personagens sofrem para ganhar autonomia. Pearce escreve para eles estritamente o necessário, como fichas técnicas: eles se definem por seu trauma (a mãe sem filho, o filho sem pai), por sua especialidade ou por seu estilo. Um fala de outro (de suas habilidades, de seu passado) como se já soubesse tudo o que há para saber sobre essas pessoas.

Para o espectador, fica a impressão de ser escanteado da experiência de descobrir as coisas. É como se Hotel Artemis - pelo menos em lances potenciais de dramaturgia, como primeiros contatos ou conflitos nascentes - já tivesse acontecido e agora só nos resta acompanhar o desfecho dessa história, com a qual não temos um vínculo mais forte do que, talvez, uma boa vontade ou alguma curiosidade. É por isso que o gás de Hotel Artemis se esgota rápido: após todo o esforço inicial de nos localizar dentro daquele mundo, com suas regras específicas, que deve durar todo o terço inicial do filme e mais um pouco, o que resta? As subtramas já chegam prontas para seu desfecho, e os próprios personagens parecem cansados de si mesmos, à espera não do fim do mundo anarquista que se avizinha mas, antes, à espera do fim do filme.

Nota do Crítico
Regular