Homem-Aranha: Um Novo Dia resgata a essência do herói ao colocá-lo no holofote
Novo filme faz a jornada mais dramática (e bonita) desta versão do herói até aqui
Um Novo Dia não é um título gratuito para o novo filme do Homem-Aranha. Desde sua estreia no Universo Cinematográfico da Marvel, Peter Parker sempre esteve rodeado de estrelas como o Homem de Ferro, Doutor Estranho e até mesmo outros Aranhas. Agora, Destin Daniel Cretton assume as rédeas da franquia e se mostra capaz dar um novo verniz ao herói, sem esquecer da fórmula que fez o filme mais recente do personagem brilhar – nostalgia atrelada a uma carga dramática relevante.
O diretor inverte a lógica de um passado recente e faz dos fan services tanto um artifício visual (como no uniforme que mistura traços das versões anteriores ou nas capas de quadrinhos replicadas em lutas com vilões) como um alívio cômico dentro da evolução do protagonista (como nas cenas das teias orgânicas que traz à mente Tobey Maguire) – nada aqui é guiado por uma alusão ao conhecimento alheio ou conexão com um universo expandido. Hulk (Mark Ruffalo) e o Justiceiro (Jon Bernthal) estão ali, mas quase como convidados de luxo. O foco é todo em o Peter Parker e seus problemas.
A linha condutora do roteiro está na depressão com a qual o Homem-Aranha lida enquanto derrota criminoso após criminoso em Nova York: ter escolhido ser esquecido por todos, incluindo seu grande amigo Ned (Jacob Batalon) e o amor da sua vida, MJ. Com uma nova ameaça na cidade, os dilemas pessoais do herói se entrelaçam com as missões, e a condição mental ganha desdobramentos alarmantes (e físicos) como olhos pretos, sentidos ainda mais aguçados e uma raiva incontrolável. A adolescência tardia e a preocupação com saúde mental, não ironicamente, veio também para o Homem-Aranha da geração da internet.
Essa dramaticidade alcança um êxtio que, tirando as consequências da morte da Tia May, nenhum outro filme de Holland conseguiu. Ela torna a jornada de Peter crível e de fato relacionável. Não importa se ele luta contra Hulk ou Justiceiro, se fica mais forte ou fraco – o que faz diferença são as questões que aproximam ele de um cidadão comum. Um Novo Dia finalmente faz do Peter de Holland um cidadão sofrido, ansioso e carregado de traumas. Ingredientes que, ao longo dos últimos 60 anos, se mostraram indispensáveis para a durabilidade do Homem-Aranha.
Mas esse peso dramático não é a única razão do sucesso de Homem-Aranha: Um Novo Dia. Destin Daniel Cretton já havia mostrado habilidade com sequências de ação em Shang Chi e a Lenda dos Dez Anéis, mas aqui ele aproveita todas as características do herói para criar cenas fantástica que ficarão por um bom tempo na memória dos fãs. As lutas são intensas, bem coreografadas e nunca repetitivas. Os voos de teia por Nova York podem ser um descanso para a vista ou uma perseguição veloz. Com uma harmonia visual vinda de um claro afastamento dos cenários de CGI exagerados, Um Novo Dia se revela o filme mais bonito estrelado pelo teioso de Holland.
Há de se comentar também que Destin e seus roteiristas (Chris McKenna e Erik Sommers) fazem um ótimo trabalho no maior dos desafios do longa: incluir tantos personagens sem perder o rumo. A dupla Aranha e Justiceiro brilha pela química de Holland e Bernthal (amigos de longa data na vida real) e já vai gerar pedidos por outras aventuras juntos. Entre os adversários de Peter, que aqui vão do temível Hulk ao cômico Boomerang, passando por vilões clássicos como Lapide e Escorpião, há segundos de fama para cada um, mas sempre servindo ao propósito dentro da engrenagem que é a história maior. E ainda que na reta final do filme as coisas comecem a parecer derivativas demais, o acúmulo de personagens e motivações não é um problema considerável.
Especialmente nos primeiros 40 minutos, Um Novo Dia carrega consigo uma alegria genuína de ser um filme pura e simplesmente sobre o Homem-Aranha, e esse ritmo é mantido em algum nível até a conclusão. Mais do que isso, o longa se entende como um filme do gênero que não precisa se justificar para além dos seus próprios objetivos. Ele não tenta ser um drama existencial, um thriller policial ou um suspense com terror. Ele é um filme de herói simples e assumido, passando pela clássica fase da dúvida, sofrimento e provas doloridas que, sejamos honestos, é inseparável do Homem-Aranha.
Longe de bilionários, feiticeiros e espiões, o Homem-Aranha do MCU enfim ganhou um filme para chamar de seu. Dramático, frenético, um tanto quanto bagunçado, mas nunca desprovido do que fez os heróis da Marvel serem um sucesso nos cinemas: uma história sobre pessoas especiais com problemas comuns, que nunca perde de vista o poder do herói (e não do vilão) como catalizador da transformação. Enfim com o holofote só para si, esse é um Homem-Aranha pelo qual vale a pena torcer e acompanhar.
Homem-Aranha: Um Novo Dia
Spider-Man: Brand New Day
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