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Crítica

Histórias Que Só Existem Quando Lembradas | Crítica

Toda narrativa é antes de mais nada uma fantasmagoria

Marcelo Hessel
05.07.2012
17h19
Atualizada em
06.11.2016
20h00
Atualizada em 06.11.2016 às 20h00

Das coisas normalmente associadas à cultura da nostalgia dos hipsters, como a vitrola e a gravata borboleta, nada é mais "antiquado" do que uma câmera pinhole. Essa máquina fotográfica sem lente, composta basicamente de um obturador (o "buraco de alfinete" do nome em inglês) aberto numa câmara escura, emula os primórdios do processo fotográfico, quando as pessoas ainda temiam que tirar retratos podia roubar-lhes a alma.

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Em Histórias Que Só Existem Quando Lembradas, a mochileira Rita (Lisa E. Fávero) chega ao vilarejo fictício de Jotuomba, no Vale do Paraíba, com seu iPod, sua câmera digital e algumas latas vazias transformadas em pinholes. Jotuomba é um pedaço ressecado de terra à margem do que foi uma ferrovia. Seus habitantes assam pães, jogam malha e vão à missa como se tivessem com o tempo um acordo de não-agressão, como se o simples ato de pensar ou falar do tempo (e não da meteorologia...) pudesse acabar com a sobrevida de Jotuomba. É por isso que na parede da igreja, anexa ao cemitério, os moradores pararam de registrar os nomes dos mortos.

Acontece que, em Jotuomba, Rita encontra aquilo que o tipo de fotografia de lenta exposição da pinhole sempre almeja registrar: a passagem do tempo. Não é só a chegada da jovem mochileira que desestabiliza a rotina dos idosos do vale; é o contato com o registro em imagens da sua própria velhice que transforma os personagens de Histórias Que Só Existem Quando Lembradas, principalmente Madalena (numa interpretação muito marcante da atriz Sonia Guedes).

O filme da diretora Julia Murat, estreante em longas de ficção, lida de forma bastante sensível com os diferentes pontos de vista de Madalena e Rita. A janela do filme, inicialmente 2,35:1, os close-ups e os planos-detalhes vão se modificando dependendo de quem olha - os objetos enferrujados do armazém de Antonio (Luiz Serra), por exemplo, nós só percebemos que enferrujaram porque Rita em sua curiosidade os revela para nós, enquanto Madalena os vê no plano aberto, sem especificidades. Aos poucos, influenciada pela garota, a velha passa a ver também essas marcas do tempo (como os close-ups nos rostos dos demais personagens), e as reações de Madalena a essas revelações são profundamente tocantes.

Embora soem calculadas em excesso outras relações que o roteiro estabelece (o bebê que Madalena perdeu por causa de um fotógrafo, o momento solene demais da virada do LP), esses ruídos são menores dentro da atmosfera de imersão que Murat estabelece com seu diretor de fotografia, Lucio Bonelli. Toda narrativa é antes de mais nada uma fantasmagoria, e em Histórias Que Só Existem Quando Lembradas todo canto escuro se preenche com vultos de histórias. Do homem negro no breu da noite só enxergamos os olhos, mas esses olhos têm algo a contar - basta um espectador paciente, como a câmera "antiquada", para perceber.

Histórias Que Só Existem Quando Lembradas | Trailer

Histórias Que Só Existem Quando Lembradas | Cinemas e horários

Nota do Crítico
Ótimo