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Créditos da imagem: Histórias Assustadoras para Contar no Escuro/Diamond Films/Divulgação

Filmes

Crítica

Histórias Assustadoras Para Contar no Escuro

Terror juvenil emula a fórmula de It para parecer casual e ao mesmo tempo estabelecer uma mitologia

Marcelo Hessel
08.08.2019
12h48

Adaptar Stephen King ao cinema e à TV nunca saiu de moda, mas talvez tenha se tornado um acontecimento midiático nos últimos anos porque o próprio gênero do terror deixou de ser um nicho em Hollywood para se tornar o novo mainstream, num cenário em que a produção de médio orçamento foi anulada na polarização entre os blockbusters inflacionados e os filmes de baixo investimento. É como se King fosse para os filmes de terror de todas as idades o equivalente de Steven Spielberg para a máquina de blockbusters, o paradigma narrativo e comercial a ser usado como modelo, e replicado indefinidamente.

Histórias Assustadoras Para Contar no Escuro adapta ao cinema um contemporâneo de King, Alvin Schwartz, cuja série de "terror de acampamento" se estendeu por três coleções de contos, publicadas entre 1981 e 1991. Schwartz e King pegaram a época áurea do horror juvenil - só no ano de 1981 foram lançados Um Lobisomem Americano em Londres, Grito de Horror, A Morte do Demônio, o segundo Sexta-Feira 13 e o segundo Halloween, além de Pague para Entrar, Reze para Sair. Agora no cinema, Histórias Assustadoras inevitavelmente levanta comparações, em meio ao revival do horror teen.

Guillermo Del Toro coproduz e é um dos argumentistas do longa, que estrutura as histórias para apostar numa nova franquia, alimentando uma mitologia e incentivando continuações, a exemplo de Stranger Things (que por sua vez começou copiando King) e principalmente It - A Coisa. Nos livros, Alvin Schwartz compilava contos independentes; no filme, embora o título sugira um formato de antologia, a trama é linear e mais tradicional, concentrada na figura de Sarah Bellows, assombração que escreve com sangue histórias em um livro e com isso manifesta fisicamente criaturas que personificam os medos de seis adolescentes da cidadezinha de Mill Valley.

O aspecto mais tradicional de Histórias Assustadoras - que aproxima o filme dos thrillers dos anos 2000 - é como as viradas se sucedem, a partir do momento em que Sarah começa a agir e os protagonistas são forçados a investigar a morte da garota para quebrar o ciclo assombrado. Esse compromisso com a exposição (quem é Sarah, quais são suas motivações, qual é a verdade por trás do mito) afasta o longa da ideia descompromissada e lúdica que se faz dos terrores de criatura, focados da criação de situações variadas de horror. Assistir a Histórias Assustadoras esperando mais esses tipos de sustos do que um suspense linear, dessa forma, pode ser uma receita de decepção para o espectador.

Mesmo porque os sustos não são o forte, ainda que o filme tente se sustentar neles. O diretor André Øvredal tem dificuldade de criar situações de jump scare, e as limitações do orçamento ficam visíveis na computação gráfica, escondida na iluminação baixa. O potencial de Histórias Assustadoras está em outro lugar: na insistência de localizar a trama (e por consequência os subtextos) especificamente nos anos Nixon e no auge da desesperança com a Guerra do Vietnã. Øvredal amarra a analogia política com o terror de forma casuística - o próprio Del Toro aprofunda isso melhor quando associa a fantasia e a Guerra Civil Espanhola em O Labirinto do Fauno - mas só a tentativa de articular essa especificidade já consegue diferenciar o filme de seus similares.

Talvez Histórias Assustadoras resultasse mais efetivo se organizasse melhor seus pontos de interesse e como tenta prender a atenção do público. O enunciado sugere inicialmente uma trama de nerds/párias contra bullies, depois abandona essa ideia durante a primeira "história", e todo o nosso envolvimento emocional com os protagonistas precisa se reorganizar e se refazer no conflito da garota-fantasma, a trama propriamente dita. Talvez seja por isso que permanece a sensação de que Histórias Assustadoras fica barrigando no miolo do filme, antes de se reencontrar no desfecho (quando a exposição deixa de ser uma obrigação e o filme pode se concentrar na entrega e em amarrar os arcos soltos).

Nas experimentações de subgêneros do terror de baixo orçamento que a produtora Blumhouse tem feito nos últimos anos, desde os bons tempos do found footage até o terror social pós-Purge, não ficaria de fora o horror juvenil. Histórias Assustadoras embarca na moda meio tardiamente e esse descompasso fica latente na sua proposta difusa, mas isso não impede necessariamente de agradar o espectador que estiver atrás de uma variação de It.

Nota do Crítico
Bom