Hereditário

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Crítica

Hereditário

Filme de horror disruptivo brinca com as convenções do gênero em chave farsesca

Marcelo Hessel
20.06.2018
17h43
Atualizada em
29.06.2018
14h50
Atualizada em 29.06.2018 às 14h50

Como um bom filme de estreia, cheio de ideias e coisas a articular, Hereditário faz a maior quantidade de escolhas possíveis orientado por quebras de expectativa. O roteirista e diretor Ari Aster transita da farsa ao absurdo num esforço intenso de subverter e ao mesmo tempo aderir ao que se espera de uma história de horror.

Nesse sentido, Hereditário opera numa chave oposta a filmes como A Bruxa, também lançado pela distribuidora A24 nos EUA (falamos do lançamento e de expectativa em um artigo separado aqui); enquanto A Bruxa tem pretensões de filme de horror "elevado" e não cede fácil às catarses de gênero, Hereditário renega, acima de tudo, a sobriedade do registro naturalista. Acompanhamos a história de uma família de classe média alta em luto - a partir do velório da avó o filme é ladeira abaixo de uma espiral de loucura - numa sucessão de aproximações lúdicas com as convenções do gênero.

É como se Aster observasse as coisas de cima, numa metanarrativa. Essa postura fica logo clara, mesmo porque o filme já a apresenta como "aviso" ao espectador, quando o traveling inicial introduz a casa na árvore no terreno da família Graham, depois entra pelo quarto de trabalho de Annie (Toni Collette), profissional de miniaturas realistas, e termina entrando na casa de bonecas de uma das maquetes de Annie, de onde parte a ação do filme. Essas camadas já são o primeiro indício de que Hereditário passará longe do naturalismo, e a partir disso as variações de tom que Aster exercita ganham ainda mais uma cara de brincadeira de titereiro (cujo sadismo implícito, ademais, se encaixa bem num filme de horror).

É como se Aster fosse um Charlie Kaufman sem a neurose de identidade e cheio de vaidades e vontades de performar. Embora a referência do cineasta seja o horror realista dos anos 1970, como O Bebê de Rosemary, seu filme se aproxima mais da obra pós-setentista de cineastas autoconscientes do horror, como Wes Craven. Hereditário não é exatamente um filme de lento construir de suspense (nesse sentido um filme como The House of the Devil, de Ti West, está muito mais próximo do horror "lento" setentista), porque logo de cara temos bizarrices lynchianas como o pássaro decapitado ou o fogo no jardim. Não são exatamente aqueles momentos de catarse que fazem as pessoas saltar da poltrona, mas são sem dúvida elementos de disrupção que não têm nada a ver com o naturalismo de um suspense que se pretende cauteloso.

Aster inclusive parece rir do realismo. Seus personagens se comportam menos como vítimas de uma tragédia familiar - a filha subjugada pela mãe autoritária, a maternidade forçada, o matrimônio sem comunicação - do que como imitações caricatas de figuras trágicas, presas na metanarrativa (não por acaso o filho de Annie estuda tragédia na aula de literatura no colégio). Mãe, marido e filhos andam e reagem a estímulos como sonâmbulos histéricos, numa versão mais divertida de Beleza Americana que ironiza a autoimportância que a classe média alta americana atribui a si mesma. Gabriel Byrne inclusive parece que nunca havia visitado antes a casa onde o filme se passa, e ele quase apanha da escada do sótão quando tenta manuseá-la.

Se Hereditário provoca risos na plateia, como se relata desde sua estreia nos EUA, isso pode acontecer não apenas pelo caráter francamente cômico da caricaturização dos personagens e da narrativa farsesca, mas também porque talvez fique claro para o espectador que Aster esteja rindo por dentro quando filma suas sangueiras com evidente satisfação. A partir da metade, inclusive, o filme se orienta pelo prazer do medo e passa a entregar situações pensadas pela variedade e pelo arrojo (as câmeras ficam mais acrobáticas, a música sobe mais). Aster faz um movimento de readmitir estruturas consagradas do gênero (como o terceiro ato que investiga motivos e históricos) mas de forma transversal, via absurdo e estilização, como as intervenções novidadeiras de computação gráfica.

De certa forma, de todos os parentescos que Aster esboça em seu impulso cinefílico, talvez Hereditário se aproxime mais de outro terror recente que subverte a lógica naturalista em favor da farsa: a versão de Adam Wingard para Death Note. Nos dois filmes, embora a caricatura tenha um efeito cômico imediato muito claro, no fundo ela reflete uma preocupação em preservar um efeito duradouro de disrupção. São duas tragicomédias de horror que acima de tudo estão rindo da sua capacidade de jogar com regras e expectativas do riso e do desconforto.

Nota do Crítico
Ótimo