Her Private Hell | Nicolas Winding Refn faz trabalho vazio com Sophie Thatcher
Novo longa do diretor de Drive tropeça na sua falta de interesse (ou capacidade) em fazer o básico
Créditos da imagem: NEON
Retorno de Nicolas Winding Refn à telona, Her Private Hell está longe de ser um excelente filme, mas é um excelente exemplo do que há de bom e de ruim no cinema do diretor, e como ele mudou com o tempo. Aqui estão o estilo e atmosfera que frequentemente estiveram claros em seus melhores trabalhos (Valhalla Rising e Drive), e também sua dificuldade cada vez mais pronunciada em comunicar tema, drama ou qualquer outro elemento essencial para uma história.
Não seria um problema se Refn fizesse roteiros incompreensíveis ou assumisse uma abordagem pra lá de surrealista, mas o que Her Private Hell deixa claro é que quanto mais disposto a abraçar uma estética autoral e imponente o cineasta dinamarquês está, menos interessado, ou até incapaz, ele é de fazer o básico com qualidade. Seu novo filme é um suspense sobre a atriz Elle (Sophie Thatcher), que chega numa cidade cyberpunkiana e aparentemente japonesa coberta por névoa para atuar num novo projeto ao lado de sua antiga melhor amiga, e atual madrasta, Dominique (Havana Rose Liu). Trata-se de uma tentativa de seu pai, um homem rico e desequilibrado cujo nome – Johnny Thunders – é uma das poucas grandes decisões deste filme, de fazê-las voltarem a se dar bem.
Interpretado por Dougray Scott, Johnny é acusado por Elle de ter casado com Dominique para tentar se aproximar de uma filha que, fica claro, não tem mais interesse nele. Dominique, porém, parece querer reatar os laços, e com ela, Elle se mostra mais aberta. No processo, as duas (e uma outra colega de tela: Hunter, vivida por Kristine Froseth) cruzam o caminho da lenda do Homem de Couro, uma figura sobrenatural condenada a passar a eternidade vagando pela neblina para procurar a filha que perdeu dentro de outras mulheres, algo que ele faz literalmente rasgando-as ao meio.
Se Her Private Hell parou de fazer sentido para você neste texto, permita-me dizer, modestamente, que fiz um bom trabalho descrevendo sua premissa. Banhado em neon com uma estética que mistura maquiagens e figurinos dignos dos piores episódios de Euphoria com uma ambientação que parece uma tentativa de recriar Blade Runner 2049 em IA, Her Private Hell tem uma série de sementes de ideias que são plantadas, mas nunca regadas. Eventualmente, surge uma figura rival ao monstro. Também fadado a caminhar pela névoa buscando sua filha, o Soldado K (Charles Melton) se torna o oposto desta entidade, e mata não mulheres, mas sim os homens que as ameaçam.
Tudo isso parece ser uma tentativa de Refn de falar sobre pais e filhas. Mas o quê? Eu não sei dizer, e aposto que nem ele tem alguma conclusão ou linha de pensamento que queira discutir. Her Private Hell está mais preocupado em colocar em tela composições por vezes chamativas – Refn ainda é capaz de bolar um visual marcante, como quando Elle começa a transar com um ex-colega do pai, Nico (Diego Calva) ao lado de uma janela de vidro completamente ensanguentada – e abrir espaço para a excelente trilha sonora de Pino Donaggio. Como Cliff Martinez em Drive, o compositor consegue levantar sentimentos onde Refn falha, mas sua colaboração não é o suficiente para que nosso interesse se mantenha.
Repleto de vibes mas vazio em alma, Her Private Hell termina mais parecendo um comercial de perfume ou algo do tipo. Suas imagens servem apenas para direcionar a atenção a elas mesmas. Para Refn, uma atriz bonita num vestido chamativo, cercada por luzes azuis e rosas, é o necessário para que ele fique hipnotizado atrás da câmera. Enquanto isso, de frente para a telona, lutamos contra o sono.
Crítica escrita em 19 de maio no Festival de Cannes. Her Private Hell estreia em breve no Brasil.
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