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Crítica

Heartstopper Para Sempre é curto demais para uma história tão marcante

Longa da Netflix não faz a devida justiça ao universo criado por Alice Oseman

Omelete
5 min de leitura
17.07.2026, às 04H00.
Heartstopper: Para Sempre

Créditos da imagem: Divulgação/Netflix

Heartstopper Para Sempre encerra uma das franquias de romance mais importantes da era do streaming. Desde que a primeira temporada estreou no catálogo da Netflix, a adaptação dos quadrinhos de Alice Oseman conquistou uma legião de fãs ao contar uma história de amor queer com uma delicadeza rara, transformando Charlie (Joe Locke) e Nick (Kit Connor) em personagens icônicos da televisão moderna. Era de se esperar, portanto, que a gigante dos streamings oferecesse à franquia um encerramento à altura do legado da série. No entanto, o capítulo final — agora apresentado na forma de um longa-metragem de 1h54 — talvez não entregue o encerramento que essa história, e seu público, realmente mereciam.

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A trama acompanha Charlie Spring, Nick Nelson e seus amigos no último ano do colégio. Com a formatura batendo à porta, todos precisam lidar com o medo do futuro, das universidades, das despedidas e das mudanças inevitáveis que chegam com o “fim da adolescência". É um clássico coming of age, mas contado com a sensibilidade que sempre definiu a série.

O primeiro grande acerto do filme está justamente na inversão da dinâmica entre os protagonistas. Durante boa parte das três temporadas, os conflitos mais pesados recaíram sobre Charlie. Era ele quem, na maior parte das vezes, precisava de apoio, quem enfrentava suas inseguranças e seus problemas de saúde mental, enquanto Nick assumia, muitas vezes, o papel de sustentação emocional da relação. Em ‘Para Sempre', isso muda completamente.

Charlie aparece mais seguro, mais maduro e finalmente em paz consigo mesmo. Depois de tudo que o jovem viveu, é emocionante assistir um personagem que agora sabe se posicionar, sabe o que quer e transmite uma confiança que não existia nas temporadas anteriores. Em contrapartida, é Nick quem vive sua fase mais difícil. Ainda preso às questões com o irmão e sua família em geral, Nick aparece muito mais inseguro em relação ao seu futuro e completamente aterrorizado com a possibilidade de repetir os erros do pai, se tornando — por boa parte da narrativa — o centro emocional do longa.

Todo o desenvolvimento dos personagens, construído nos últimos anos, culmina em uma dinâmica de intimidade realista e envolvente, que evidencia o amadurecimento da relação entre Charlie e Nick. A maneira como o filme aborda a sexualidade dos protagonistas, por exemplo, também renova esse universo de forma muito bem-vinda. Não que Heartstopper precisasse de cenas de sexo, mas, neste momento, sua inclusão soa completamente orgânica. Oseman introduz esse aspecto da vida dos personagens com muita naturalidade, sem transformar a intimidade em espetáculo, respeitando o tom delicado característico da obra.

Entre os acertos de roteiro e as excelentes atuações do elenco, Heartstopper Para Sempre se perde justamente em sua maior limitação: ser um filme. Sem o espaço de costume que a série sempre dispôs para desenvolver seu universo, Alice Oseman se vê diante da tarefa ingrata de terminar de contar sua história construída ao longo de três temporadas em menos de duas horas.

Essa limitação afeta principalmente os personagens que orbitam Charlie e Nick. Tara, Darcy, Tori, Isaac e Imogen mal encontram espaço para concluir suas narrativas. Com exceção de Tao e Elle — que são os únicos amigos do casal que recebem algum desenvolvimento mais consistente —, os demais colegas são reduzidos à participações pontuais, funcionando quase exclusivamente como suporte para a narrativa dos  protagonistas. 

É verdade que Heartstopper sempre foi, acima de tudo, a história de Charlie e Nick. Ainda assim, depois de mais de 20 episódios dedicados a construir esse grupo de amigos com tanto carinho, é inevitável sentir que algo ficou pelo caminho. O filme cumpre a missão de concluir o romance central, mas deixa um gosto agridoce ao abrir mão de despedidas mais completas para personagens que também conquistaram o público ao longo dos anos.

Além disso, alguns dos conflitos que movimentam a narrativa acabam surgindo de maneira pouco convincente. O principal desentendimento entre Charlie e Nick — e pode ficar tranquilo, esta crítica é livre de spoilers — nasce de forma tão abrupta que soa artificial, como se existisse apenas para criar tensão dramática. Em vez de parecer uma consequência natural da evolução dos personagens, o conflito corre o risco de deixar parte do público se perguntando se aquilo realmente era grave o suficiente para desencadear os acontecimentos que se seguem.

Heartstopper Para Sempre
Divulgação/Netflix

Outros problemas de roteiro também surgem à medida que a história avança, sobretudo quando o filme parece abrir mão do amadurecimento que Charlie e Nick demonstram ter alcançado na primeira metade da narrativa.

Com um tempo de tela tão limitado, Heartstopper Para Sempre hesita entre concluir os conflitos de seus personagens e prestar homenagem à própria trajetória. As diversas referências diretas à primeira temporada certamente despertam a nostalgia dos fãs, mas, nesse contexto, acabam soando mais como um exercício de fan-service do que como elementos realmente necessários à narrativa. Em um filme que já luta contra a falta de tempo, essas sequências poderiam ter cedido espaço a diálogos e conflitos mais desenvolvidos, conferindo maior peso emocional às resoluções propostas pelo roteiro.

Heartstopper se despede da televisão de forma satisfatória, mas deixa a sensação de que poderia ter entregue um encerramento muito mais à altura de tudo o que Alice Oseman, Joe Locke, Kit Connor e o restante do excelente elenco construíram ao longo dos anos. Para quem, assim como eu, se apaixonou por esse universo e por seus personagens, as inúmeras homenagens ao início da jornada de Charlie e Nick certamente aquecem o coração e tornam mais fácil relevar algumas das limitações do roteiro (e do formato).

Em um momento em que pessoas LGBTQIAPN+ seguem vendo seus direitos ameaçados ou até mesmo revogados em diferentes partes do mundo — algo que a brilhante Elle relembra com sensibilidade em um momento no filme —, Heartstopper Para Sempre encerra uma das mais belas e importantes histórias de amor jovem dos últimos anos. 

Mesmo limitado pelo formato, o filme reafirma por que a obra de Alice Oseman se tornou tão significativa: boas histórias de amor sempre merecem ser contadas e, acima de tudo, histórias de amor queer têm o poder de emocionar, representar e marcar uma geração inteira. Talvez esse não seja o desfecho perfeito, mas é uma despedida que reforça por que Charlie e Nick permanecerão, para sempre, na memória de quem acompanhou sua jornada até aqui.  

Heartstopper Para Sempre

Heartstopper Forever

14
Duração: 114 min
Direção: Wash Westmoreland
Roteiro: Alice Oseman
Elenco: Joe Locke, Kit Connor
Onde assistir:

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