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Headhunters | Crítica

Filme de ação norueguês é uma schadenfreude contra o Capitalista Eficiente pronta para ser refilmada em Hollywood

Marcelo Hessel
05.07.2012
20h28
Atualizada em
04.11.2016
18h00
Atualizada em 04.11.2016 às 18h00

As críticas que se fazem ao capitalismo no cinema frequentemente batem na tecla da exclusão, como se já não tivéssemos nós todos, bem ou mal, sido assimilados pelo sistema. Filmes como o norueguês Headhunters (Hodejegerne, 2011) são mais interessantes hoje porque partem de um ponto além, em que o mal estar surge não das imperfeições do sistema, mas de sua suposta e sufocante precisão. É o drama do capitalista eficiente.

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O norueguês Roger Brown (Aksel Hennie) é o headhunter do título, cuja profissão depende, acima de tudo, da precisão. Headhunters são os caça-talentos do mundo corporativo, gente contratada por empresas para procurar no mercado os executivos ideais para posições de liderança. Na trama do filme, Roger sabatina os candidatos a essas vagas em Oslo para, secretamente, aplicar golpes: ele descobre se o entrevistado tem obras de arte em casa, seus hábitos e seus horários, e então invade-lhes a residência para trocar as telas originais por falsificações.

O esquema começa a ruir quando, cego de dívidas para pagar os mimos que ele compra para sua loira e alta esposa, Roger escolhe como vítima um veterano de guerra, o sueco Clas Greve (Nikolaj Coster-Waldau, o Jaime Lannister de Game of Thrones), ex-diretor de uma empresa de rastreamento. E então descobrimos que Roger não é o único "caçador de cabeças" da história.

Headhunters se baseia no romance homônimo de 2008 do escritor Jo Nesbø, tido por seus compatriotas como o "Stieg Larsson norueguês". Assim como o autor sueco da trilogia Millennium, Nesbø também usa o thriller policial para comentar o estado da sociedade de seu país. O eterno complexo de inferioridade dos noruegueses diante dos suecos (dá pra encarar Headhunters como uma versão menos escrachada de O Grande Chefe de Von Trier) e a obsessão com as aparências do exercício do capitalismo são os alvos aqui.

"Alvos" é a palavra porque o filme do diretor Morten Tyldum realmente elege Roger como o cristo que vai expiar todos os pecados do capital. O objetivo do conto sádico-moralista de Headhunters é literalmente despir o personagem de todas as suas superficialidades e fazer com que ele encontre, afundado na merda, do-fundo-do-seu-ser, uma razão genuína para sobreviver. A schadenfreude se consuma nas cenas em que, caçado por Clas, Roger começa perdendo a dignidade, depois a esposa, o carro, a roupa, o relógio, os cabelos.

Nos seus melhores momentos, quando parece ter tirado de Roger todas as possibilidades de escapar, o filme alcança um grau de imprevisibilidade que é o contraponto ideal àquele projeto inicial de precisão e cálculo. Não deixa de ser bonito ver o Capitalista Eficiente apelando para a sorte. Talvez por isso o final de Headhunters seja um pouco desestimulante - não só porque bate aquele déjà vu básico de Onze Homens e um Segredo (narração em off e clipagem de flashbacks explicando o passo-a-passo do golpe final) mas também porque devolve ao filme uma frieza que não parecia ter mais lugar depois de tantas sucessões de acasos.

Talvez o final fosse mais satisfatório se seguisse na linha do Vício Frenético de Werner Herzog, em que o anti-herói, diante do completo desarranjo do mundo, abraça o caos e ali encontra uma purificação. De qualquer forma, o final de Headhunters é outro, e do jeito que está não demoraria até aparecer um capitalista pronto a transformar sua ótima premissa numa refilmagem hollywoodiana. O remake vem aí.

Headhunters | Trailer legendado

Headhunters | Cinemas e horários

Headhunter (2012)
Hodejegerne
Headhunter (2012)
Hodejegerne

Ano: 2012

País: Noruega

Classificação: 12 anos

Duração: 101 min

Direção: Rumle Hammerich, Francis Schaeffer

Roteiro: Rumle Hammerich, Len Spinell

Elenco: Lars Mikkelsen, David Bateson, Charlotte Fich, Samuel Fröler, Andrea Vagn Jensen, Henning Moritzen, Charlotte Munck, Burkhard Forstreuter, Søren Spanning, Troels Lyby, Henrik Ipsen, Katrine Læssøe Agesen, August Igor Svideniouk Egholm, Preben Harris, Anders Valentinus Dam, Kjeld Nørgaard, Vibeke Hastrup, Wayne Crawford, Kay Lenz, Steve Kanaly, June Chadwick, John Fatooh, Gordon Mulholland, Sam Williams, Helena Kriel, Ted Le Plat, John Barrett, Peter Notaro, Jim Neill, Isaac Albert, Robert La Thom, Al Roberts, Anna Molefe, Barrie Saint Clair, Ashley Waldorf

Nota do Crítico
Bom

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