Foto de Guava Island

Créditos da imagem: Guava Island/Amazon/Divulgação

Filmes

Crítica

Guava Island

Obra “secreta” de Childish Gambino aborda de forma suave a complexidade de lutar pela sobrevivência, mas tem na expectativa seu pior inimigo

Jacídio Junior
19.04.2019
16h37

A expectativa não costuma ser uma ferramenta interessante para projetos de arte, não é mesmo? E com Guava Island, filme idealizado por Donald Glover/Childish Gambino, esse elemento parece ter desempenhado um papel importante na forma como boa parte do público viu, compreendeu e divulgou o projeto. De entrada, vale dizer que o trabalho tem direção de Hiro Murai, roteiro de Stephen Glover e direção de fotografia de Christian Sprenger, todos nomes envolvidos em Atlanta, a série que deu à faceta de ator de Donald ainda mais visibilidade no mercado mundial do entretenimento.

A partir daí, toda a expectativa em torno desse time criativo, da parceria com Rihanna e o buzz que um projeto surpresa desse tamanho poderia causar, colocaram a ânsia por vê-lo em um patamar que possivelmente não corresponde à obra como algo para ser vendido em larga escala, mas que - visto sob uma perspectiva mais específica - faz o olhos brilharem com seu simbolismo e abordagens.

Guava Island, assim, surge como uma alegoria dos lugares paradisíacos nos quais o tempo só existe para quem vem de fora conhecer e aproveitar as belezas do lugar. Um espaço que não recebe atenção a não ser pela produção de algo por um valor muito baixo e que fora dali tem seu preço diversas vezes multiplicado. Essa abordagem poderia gerar diversos plots mais profundos, até mesmo levar o filme para uma jornada muito maior do que os 55 minutos disponibilizados na Amazon Prime, mas aí surge a pergunta: será que era isso que Glover/Gambino queria que a obra se tornasse? Ao entregar um filme que até pode ser interpretado como um compilado de releituras para suas músicas novas, Gambino parece buscar por uma forma de extrapolar o básico e a expectativa que o projeto trouxe.

Isso pode ser notado graças à aposta em uma “crueza maquiada”, que está ali na forma como o filme mostra o dia a dia de quem luta por sobrevivência, pura e simplesmente, e não tem espaço para outro tipo de jornada. Porém, essa aposta em um visual suave e “alegre” ainda é usada para embasar um discurso político de maneira visual, algo para gerar reflexões mais profundas (dependendo totalmente da ligação do público com o que é mostrado), ou somente entregar um momento no qual temas complexos são apresentados em uma embalagem que não irá levar a audiência em busca de entretenimento para um final de tarde de depressão.

É uma mistura de simbolismos e parábolas perfeitamente capazes de fazer os olhos de quem está na batalha por um lugar ao sol - nas artes ou na vida cotidiana - brilharem. E com isso, nada em Guava Island parece ir ao encontro de uma solução pragmática, aposta que abre espaço para uma mistura visual de amor à cultura negra com a apresentação da impossibilidade dos personagens de aproveitarem suas vidas fora do trabalho, dois elementos que nos países considerados desenvolvidos passam totalmente à margem de qualquer reflexão.

Isso fica claro quando vemos uma ilha paradisíaca do Caribe, com a população negra, na qual todos trabalham sete dias por semana para vender algo para outro lugar. Alguns têm o sonho de guardar dinheiro para fugir dali, pura e simplesmente, para a América (do Norte), no que o personagem de Glover lança uma de suas frases pinçadas e - talvez - de maior impacto: “A América é um conceito: qualquer lugar onde, para que você fique rico, é necessário fazer com que alguém fique ainda mais rico, é a América”

E então retornamos à expectativa. Depois do lançamento de “This Is America”, em 2018, - faixa que entra logo após a frase acima - fica difícil negar que o público esperava de qualquer trabalho de Glover algo incisivo e contundente, seja lá qual fosse o assunto que ele tivesse vontade de abordar. Mas, vale lembrar, que a arte conversa com um mesmo tópico de formas completamente diferentes e aí está a surpresa de Guava Island: sua leveza e crítica sutil.

Com isso em mente, também não adianta comparar este filme com o álbum visual Lemonade, lançado por Beyoncé, por exemplo. Cada um está em um lugar diferente, para gerar sensações diferentes, mas dentro de um mesmo espectro. Claro que a peça apresentada por Glover e seu time parece ter deixado pedaços para trás, com momentos que surgem uma vez e não encontram solução. Realmente, existem pontos que parecem ter sido cortados por algum motivo não relacionado com a narrativa da história. Mas aí somos obrigados a ficar apenas na suposição e tentar compreende o que podemos ver.

Rihanna, Cuba e as cores

A participação de Rihanna no filme é algo interessante e importante, já que é - praticamente - impossível não fazer a conexão entre o local em que ela nasceu (Barbados) e a ilha fictícia na qual a história acontece. Ainda, em conjunto com esse ponto, ficou o questionamento do porquê da personagem a qual a cantora dá vida ter aparecido de forma quase superficial, e “sem cantar ou dançar”.

Stephen Glover conta, em matéria da Rolling Stone, que escreveu a personagem sem saber quem seria a atriz que daria vida à ela: “Tinhamos algumas pessoas em mente e que nós gostaríamos que fizesse o papel. Felizmente conseguimos a Rihanna”.

Também é preciso ter em mente que o fato da personagem vivida por Rihanna não dar vazão para nenhum elemento ligado à música ou à dança está diretamente ligado à realidade na qual ela está inserida. Uma mulher com a vida focada no trabalho, que convive com poucos artistas, que tem os “pés no chão” o tempo todo e que tem como seu grande objetivo, deixar a ilha para trás, apesar de - infelizmente - não termos a chance de nos aprofundar mais em sua história.

Em todo caso, a troca de Glover/Gambino e Rihanna é algo que acontece de maneira muito natural e mantém a atenção na tela, sempre que os dois se encontram. Seja nos momentos musicais - todos funcionando muito bem, com excelentes performances de Gambino - seja nas rápidas trocas de palavras e olhares.

Por fim, a gravação realizada em Cuba, com figurinos e direção de arte que misturam elementos culturais da África e de outros lugares marcados pela dispersão do povo negro, é algo que também merece atenção, e mostra que nada passou batido no planejamento do filme. Tudo tem um propósito, as cores, a motivação das crianças para cantar, para roubar, das pessoas para ouvir o rádio, para dançar… Nada está ali por acaso. E para o público resta somente a compreensão da obra de acordo com seus alicerces, suas vontades ou expectativas.

Nota do Crítico
Ótimo