Icone Fechar
Filmes
Crítica

Godzilla Minus Zero amplia traumas do primeiro filme em história maior, mais dramática e violenta

Takashi Yamazaki repete esmero técnico e dobra a aposta no embate entre kaijus

Omelete
4 min de leitura
03.11.2026, às 00H00.

A comunidade cinéfila se uniu há cerca de dois anos na torcida pelo Oscar de Melhores Efeitos Visuais de Godzilla Minus One — a primeira estatueta dada a um filme em língua não inglesa na história da categoria. A consagração de Takashi Yamazaki e de sua equipe foi a cereja do bolo no sucesso que a nova abordagem do famoso monstro da Toho conquistou ao ambientar o horror do kaiju no pós-Segunda Guerra Mundial, seguindo os passos da primeira encarnação do personagem em 1954. Três anos depois, a equipe retorna para uma sequência direta, disposta a aprofundar os traumas coletivos, as cicatrizes do conflito e os dilemas dos sobreviventes.

Godzilla Minus Zero se passa quatro anos após o encerramento da guerra — dois anos após os eventos do primeiro longa. Em pleno 1949, o Japão é surpreendido pelo surgimento de uma nova ameaça: Ghidorah, criatura alada que projeta raios gravitacionais devastadores. O alerta é acionado imediatamente, e a força-tarefa liderada por Kenji Noda (Hidetaka Yoshioka), agora à frente de um departamento governamental voltado a desastres de grande escala, precisa articular uma nova contenção. Como visto no desfecho anterior, Godzilla seguia em regeneração no fundo do oceano; agora ainda mais hostil, o choque inevitável entre os dois titãs se desenha tanto como uma catástrofe sem precedentes quanto como a única via de salvação para a nação.

Omelete Recomenda

A sequência evita a armadilha de apenas reciclar a fórmula original e expande os arcos de Noda, Shikishima (Ryûnosuke Kamiki) e Noriko (Minami Hamabe), agora tentando estruturar uma vida familiar ao lado da pequena Akiko (Sae Nagatani). Tratado como herói após a derrota de Godzilla, Shikishima é convocado para a linha de frente, mas hesita em abrir mão da paz conquistada nos últimos anos. Noriko, por sua vez, carrega sequelas físicas do ataque a Ginza capazes de mudar os rumos da história. É nesse tabuleiro que entra a melhor adição do elenco: o biólogo Kanji Murakami (Min Tanaka), que acaba registrando em vídeo a primeira aparição de Ghidorah.

None
Divulgação/Toho

Godzilla Minus Zero assume um tom consideravelmente mais sombrio e violento. Murakami é sobrevivente do bombardeio a Hiroshima; seu luto e anseio de retaliação servem de motor para a sequência mais impactante da produção: uma investida brutal de Godzilla colocada em paralelo com a destruição gerada pelo próprio homem e a monstruosidade que pode residir em nós diante de armas e situações que impõem este tipo de poder. Enquanto o monstro titular retorna desprovido de qualquer contenção, Ghidorah entrega um pavor de natureza sádica, manipulando a gravidade para arremessar vagões, veículos, casas e estruturas inteiras enquanto a população assiste em choque. As tomadas aéreas ganham peso dramático redobrado, com movimentações dinâmicas de câmera que colocam o espectador dentro das manobras desesperadas dos caças japoneses e do horror que Ghidorah causa naqueles que não têm como escapar.

Yamazaki não se esquiva das tensões geopolíticas ao retratar a ocupação norte-americana no país, embora pinte as forças estrangeiras com certa caricatura de panfleto militar. Essas ingerências, contudo, empurram a narrativa ao seu clímax, culminando na apresentação do design clássico e imponente de King Ghidorah. O diretor eleva o padrão visual, conferindo porte, texturas e expressividade estarrecedoras aos monstros, dando ao confronto final a escala monumental que o cinema de gênero pede. Mesmo nas passagens em que o uso de telas e fundos artificiais se faz evidente, sobretudo nos deslocamentos de moto de Shikishima, a fotografia busca compensar com composições plásticas e saturações bem orquestradas.

O diretor também não tem medo de pesar a mão no drama, nos gritos e discussões. Se as imagens dos ataques e de um Japão novamente devastado preenchem toda a tela, é o elenco que ancora a narrativa: Yoshioka, Tanaka e a pequena Nagatani entregam atuações consistentes, transformando o desespero em um contraponto palpável à destruição urbana. O choro de Akiko é tão real, que causa incômodo e aflição com as ações de Shikishima e Noriko. A narrativa por vezes flerta com o inchaço ao dividir a atenção entre múltiplos núcleos, cada um com seus dilemas morais, mas a montagem se mantém mais coesa do que em Minus One, equilibrando bem as subtramas sem perder o compasso do perigo iminente.

None
Divulgação/Toho

Godzilla Minus Zero se consolida como uma sequência à altura do sucesso de 2023, ampliando os riscos, as consequências dos ataques e o peso das perdas. Yamazaki reforça o papel fundamental do Gojira na memória cultural japonesa, afastando ainda mais essa história e seus símbolos das pataquadas (divertidas, diga-se) produzidas no ocidente, mas sem abrir mão do espetáculo de grande orçamento. Minus Zero é uma obra pensada para a maior tela e o sistema de som mais potente disponíveis, mas cujo verdadeiro trunfo reside em manter os conflitos humanos no centro da destruição, sem perder o encanto na ação causada pelo embate dos kaijus.

Nota do Crítico

Godzilla Minus Zero

Godzilla Minus Zero

16
Duração: 135 min
Direção: Takashi Yamazaki
Roteiro: Takashi Yamazaki
Elenco: Min Tanaka, Minami Hamabe, Hidetaka Yoshioka, Sae Nagatani, Ryunosuke Kamiki
Onde assistir:

Comentários (0)

Os comentários são moderados e caso viole nossos Termos e Condições de uso, o comentário será excluído. A persistência na violação acarretará em um banimento da sua conta.

Escrever comentário


Ao continuar navegando, declaro que estou ciente e concordo com a nossa Política de Privacidade bem como manifesto o consentimento quanto ao fornecimento e tratamento dos dados e cookies para as finalidades ali constantes.