Filmes

Crítica

Godzilla | Crítica

Gareth Edwards consegue conciliar gravidade e maravilhamento com seu remake que faz uma releitura do clássico

Marcelo Hessel
11.05.2014
12h52
Atualizada em
29.06.2018
02h38
Atualizada em 29.06.2018 às 02h38

Antes de virar uma série de longas de duelos de monstros e consagrar Japão afora o gênero do tokusatsu (ou "filme de efeitos especiais"), Godzilla surgiu em 1954 como uma elegia aos mortos nas bombas atômicas de 1945. O novo remake americano de Godzilla tenta honrar esses dois lados: é muito mais dramático e grave que um Círculo de Fogo, por exemplo, mas não deixa de oferecer as recompensas catárticas que os fãs de tokusatsu esperam.

De seu primeiro longa, Monstros, o diretor Gareth Edwards traz seu conhecimento em efeitos visuais para imaginar um mundo onde a passagem de criaturas gigantes, embora cause desastres, não parece espetaculosa: são monstros diferentes daqueles de comportamento alienígena ou acuados como o de Cloverfield; aqui eles tratam a terra como seu habitat, e o ambiente se molda a eles. Resta aos humanos se conformar.

Há uma desesperança inerente a essa condição, e é a partir dela que o filme elabora seu senso de gravidade e drama. É como se a humanidade estivesse desde sempre fadada a se perder, e o perigo nuclear entra aqui tanto como MacGuffin (bombas com contagens regressivas são mesmo irresistíveis) quanto como fantasma (a história de 1945 que se repete). Edwards faz um filme sem crueldades (quando um cachorro aparece preso diante do tsunami, ele logo se solta, por exemplo) que tenta tirar sua força dessa visão mais ampla da História.

Pessoas podem argumentar que a História se repete como farsa, o que nunca deixou de ser verdade, e de fato tem algo de ridículo na seriedade com que o personagem de Ken Watanabe racionaliza este apocalipse fantasioso. De qualquer forma, Edwards se mostra determinado a encenar seu fim de mundo como uma repetição de histórias: o menino que pode ficar órfão como seu pai ficou, o japonês que pode reviver o terror nuclear décadas depois, os pulsos eletromagnéticos que ameaçam jogar a humanidade nas trevas mais uma vez.

O diretor também parece confiante na forma solene, com ocasionais alívios cômicos, com que sua câmera se movimenta lentamente nas lutas dos monstros, como se respeitasse a escala grandiosa com que eles se movem, e lentamente também nas salas onde os humanos decidem o que fazer diante do fim. Essa estrutura díptica é pensada para aproximar essas duas escalas absolutamente distintas, a dos monstros e a dos homens. Então, por exemplo, quando percebe-se que Godzilla não é o vilão, ele passa a dividir com Aaron Taylor-Johnson a figura do herói (o que fica muito claro na cena em que eles vão juntos ao chão).

O que ajuda a diferenciar Godzilla de filmes-catástrofes recentes, que recorrem ao imaginário do 11 de Setembro de forma espetaculosa, como O Homem de Aço, é que Edwards não perde de vista o senso de maravilhamento (e não exploração) diante dos monstros. Como no seu longa anterior, as criaturas se revelam aos poucos, e nunca deixam de espantar. Assim como Cloverfield devia muito a Steven Spielberg nessa ideia de revelação gradual, Godzilla também presta contas ao diretor; é um filme de véus (muita coisa vista inicialmente por janelas embaçadas, por frestas) bem parecido com Jurassic Park, e seu senso de escala para encontrar o drama humano no desastre se aproxima do Guerra dos Mundos de Spielberg, um filme ademais muito subestimado.

Até mesmo a trilha de Alexandre Desplat lembra John Williams, e no fim não há demérito nisso. As fantasias sci-fi de Spielberg continham um senso de encantamento com o desconhecido e de revelação que Hollywood parece perder às vezes, e este filme sem dúvida o recupera.

Nota do Crítico
Ótimo