Gloria Bell

Créditos da imagem: Sony Pictures/Divulgação

Filmes

Crítica

Gloria Bell

Remake americano carece da sutileza e sensibilidade do longa original

Julia Sabbaga
28.03.2019
15h20

Há uma cena em Gloria Bell, remake americano de Sebastián Lelio de seu próprio filme chileno, em que a protagonista, após uma desilusão amorosa, ouve e canta “Alone Again, Naturally”, um hino dos depressivos. Na versão original, a cena, idêntica, traz “Águas de Março”. A mudança de música é um ótimo exemplo do que se perdeu no novo filme: sutileza.

Gloria Bell leva a história de Gloria, lançado em 2013, aos Estados Unidos. No longa, a personagem, agora interpretada por Julianne Moore, é uma mãe divorciada morando em Los Angeles, com uma rotina comum e familiar; ela se dedica aos filhos que mal a notam, lida com problemas de vizinhos, e à noite gosta de dançar e procurar homens em boates para romances passageiros. A personagem, perfeitamente humana, não é exatamente feliz ou triste. Ela é apenas uma mulher, que vive uma vida comum, e conhece Arnold (John Turturro), um homem também divorciado que ainda lida com os problemas de sua recém ex-família.

O que Lelio fez no novo longa é quase um quadro a quadro idêntico ao original. Mas a palavra “quase” tem um peso muito grande. Exatamente no que o novo filme difere do original, é onde ele perde. O ritmo, raro para as produções americanas, causam estranhamento de cara em Gloria Bell, mas isto não seria um problema se conseguisse transmitir um passo da vida real. Pequenos cortes em conversas corriqueiras e diálogos da vida comum, em Gloria, ressaltam uma melancolia humana impecável, ainda mais porque o filme original tem um pano de fundo político presente a todo momento. No produção americana, Lelio tenta trazer uma discussão da sociedade estadounidense mas, sem a força significativa presente no passado chileno, o contexto perde peso. A conversa entre a Gloria americana e seus amigos sobre posse de armas fica tão passageira que não significa tanto quanto no original, no qual os amigos comentam os fantasmas do passado do país.

Não é surpreendente ver Julianne Moore brilhando em Gloria Bell. A escolha da atriz é perfeita, e sua representação da personagem é o que permanece do filme original. A alma de uma mulher forte, que vive como coadjuvante de sua própria vida, está bem representada em todo momento, desde sua rotina noturna até o ambiente monótono do trabalho, e a construção de uma personagem tão relacionável é a melhor característica de Gloria Bell. A qualidade da produção, aliás, não tem muito a ser criticada. John Turturro também é um ótimo e chato Arnold, e a fotografia do longa, como um remake idêntico ao original, também é bela.

Mas não há como escapar da falta de sensibilidade. Gloria Bell, assim como o original, é permeado de músicas que acompanham a jornada da protagonista e exemplificam a evolução e o estágio de sua vida, mas a personagem de Julianne Moore tem ainda mais cenas musicais, cantando em seu carro e em casa, do que a protagonista original. A escolha de músicas é tão óbvia na produção americana que fica claro uma necessidade de explicar ao público o que se passa dentro da personagem, que canta uma playlist de hits de rádio como “Total Eclipse Of The Heart” e “No More Lonely Nights”.

O que falta em Gloria Bell, e é perceptível em toda cena, é autenticidade. A oportunidade da nova versão é levar uma história tocante ao público mais abrangente, a quem não chegaria, talvez, o chileno Gloria. Há uma sensibilidade que destoa das produções americanas de modo geral, mas a falta de sutileza causa uma sensação de remake a todo momento, que faz com que Gloria Bell perca para o original em todo aspecto.  

Nota do Crítico
Regular