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Documentário da Netflix mostra os bastidores do maior festival que nunca aconteceu

Matheus Bianezzi
13.02.2019
17h11
Atualizada em
04.07.2019
17h43
Atualizada em 04.07.2019 às 17h43

O que fazer quando tudo está dando errado? Isso mesmo, continuar insistindo no erro até causar um caos com centenas de pessoas. Fyre conta a história de como uma viagem dos sonhos de qualquer rico terminou num fiasco desconcertante - e, por esse mesmo motivo, é tão divertida. 

Para quem não acompanhou o caso em 2017, o Fyre Festival tinha uma premissa bastante megalomaníaca: fazer seus convidados viverem alguns dias no máximo luxo que o dinheiro pode comprar. O que simbolizou e ajudou a concretizar esse sonho foi a forte campanha de marketing nas redes sociais, compartilhada à exaustão pelas maiores top models, influenciadores e famosos. Entre jantares produzidos por premiados chefs de cozinha e shows de grandes nomes como o trio Major Lazer, os clientes poderiam curtir tudo que um resort em uma ilha do Caribe pode proporcionar. Acontece que, por uma série de questões bastante previsíveis, nada saiu como planejado. Os turistas acabaram dormindo em tendas que tinham servido para albergar vítimas do furacão Matthew e comendo lanches de queijo em embrulhos de isopor.

Embora a Netflix saiba que seus usuários querem ver milionários se dando mal, ela sabiamente não resume seu documentário aos memes que todos puderam acompanhar online anos atrás. Ao nos jogar dentro do conto de fadas do empresário Billy McFarland, o idealizador do evento, fica tudo mais fácil de se entender. Apesar de ser um mau caráter que enganou centenas de pessoas com intermináveis fraudes, McFarland é um exímio vendedor falastrão. Usando de sua lábia afiada, angariou milhões de dólares para a produção do evento - além de mentir muito e usar de todas as técnicas para não deixar a verdade transparecer para seus clientes. Com sua ambição lunática, ótimos contatos - como o do rapper Ja Rule, um de seus sócios - e uma carisma invejável, o empresário levou aviões cheios para uma ilha isolada no meio do atlântico. O momento que os jovens ricos desembarcam e percebem que há alguma coisa errada é impagável.

O documentário não é um prato cheio de humor a todo momento. Nos minutos finais do longa, tanto o ritmo quanto o clima tragicômico dão lugar a falas bastante sentimentais. Os moradores locais da ilha foram basicamente escravizados, tendo promessas vazias de um futuro pagamento que nunca existiu, afinal, o festival nunca chegou a acontecer de fato. Diferente de milionários que perderam dinheiro e podem arcar com esse prejuízo - ou até mesmo ir em busca de auxílio legal -, os trabalhadores braçais que construíram todas as estruturas foram lesados por completo. A dona de um restaurante na ilha, que forneceu por meses alimentação para todos os funcionários, teve que tirar dinheiro das próprias economias para simplesmente não falir.

O grande mérito do filme são seus excelentes personagens e entrevistas sem meias palavras. Todos trazem para o documentário histórias interessantes, desde as mais malucas até as mais reflexivas, sem perder em nenhum momento a leveza que um longa majoritariamente cômico tem que ter. Diferente do festival que foi um fracasso total, Fyre vale cada minuto em frente à televisão - e o público nem precisa pagar mais de 200 mil dólares.

Nota do Crítico
Ótimo